terça-feira, 25 de abril de 2017

429 - ALCÁCER-QUIBIR, DISSE O ASTRÓLOGO

  
Observo pela montra de vidro, antigo, biselado, o movimento na rua neste domingo ensolarado e, destacando-se entre os intervalos do ferro forjado, na orla do quadrado que a montra qual moldura desenha na parede deste vetusto prédio, os traços argênteos duma loura parecendo carregar sobre os ombros pesada melancolia, delineando-lhe a irregularidade dos passos num rumo apontado à solidão e em cuja projecção se atravessa uma florida mimosa atapetando de amarelo o chão que pisa, mas que não pisa pois chuta as flores p’ra diante e para longe ficando eu pensando no meu recanto se aquela mulher loura carregando tanta tristeza, retirada, recolhida em si mesma, o fará por entretanto ter criado aversão ao casamento, nem sabendo eu se será ela casada ou não e, a ser, e sim, se terá falhado esse vínculo cuja existência meramente suponho, somente vaga aliança e visível mágoa mo lembrando.

Mágoa espelhada numa carinha de anjo de rara beleza, uma beleza tão rara, das capazes de conduzir à loucura o mais listo, a uma loucura translúcida, das que se podem carregar sem que os demais dela dêem conta, dela loucura, não dela beleza, uma beleza elegíaca, insensata e extravagante de manifesta duplicidade e que tanto nos faz meter para dentro como sair de nós mesmos, cada um de nós a seu modo, inda que raramente imbuídos ou impelidos por raio de luz que, desde Alcácer-Quibir, professara um astrólogo, seria cavalgado numa manhã fantasmagórica de nevoeiro.

Porém quem nos surge não passa de cornaca, bufarinheiro, ou marinheiro, como com o último anacoreta aconteceu, o mesmo que se apresentou totalmente tatuado, roda de marear nas costas da mão direita e, na esquerda, compasso traçando firme um azimute, certamente arrancado duma bússola, essa palavra esdrúxula, rumo que sob luz trémula tornava incerto o caminho apontando a uma miragem e, quando já perto da margem, da orla, o nevoeiro se dissipou avistou o comandante algumas aves, raras, e terra, uma estranha e florida terra, tendo acorrido a vê-la, interessados  e em júbilo, em horda incessante toda a marinhagem, toda a canalha, arrebanhada para as artes da nau em véspera anterior à partida, por tavernas, albergues e bordéis e, entre eles nem um probo, antes todos cobaias, heróis uns, mártires os outros, todavia de todos o mar, tornados, furacões e escorbuto dando conta, levando-os a lenta agonia e depressão.

Fundearam num extenso vale entre montanhas albergando no planalto uma vasta planície e por ela deitaram correndo na sua sede de terra, tremendo, de pernas bambas, dolentes, inseguros e induzidos ainda pela dança dos balanços no mar, e repararam então que de terra, todos quantos para eles acorriam dando as boas vindas, estavam loucos, esfarrapados e esfomeados, tendo sido nessa ocasião que a tripulação, em delírio e dando conta da sua própria demência reparou que toda aquela faixa de terra estéril era um lindo e florido jardim à beira mar plantado pelos andrajosos indígenas, entretidos há quarenta e três anos lançando ao mar nas noites de lua cheia do alto das falésias os mortos purulentos de olhos cavados e línguas inchadas, a fim de poderem ver o mar levá-los como foice prateada nas mãos de ceifeira desastrada.

Alguém trouxera do navio uma ampulheta e duas clepsidras, ajeitando-as equilibradas na praia, sobre o cadáver em decomposição dum cachalote ao qual já tinham comido uma barbatana, assim calcularam o tempo, a hora, o dia, e, com o luar no auge estimaram estar a viver esse prodigioso momento numa terça feira, p’las zero horas do dia 25 de Abril daquela terra onde a diferença entre natureza e sociedade não chegara ainda, nem chegaria nunca, mas quem o sabia ?

E, enquanto na abóboda celeste a lua caminhava lentamente, em terra os loucos e os dementes festejavam sem saber o quê, lançando uns os foguetes e correndo os outros a apanhar as canas, das quais uma loura ensimesmada e receosa se ia desviando desde que se conhecera a si mesma, temente dum medo que agora não lograva evitar, esquecida da medicação, esquecida das consultas, recordando somente que a primeira cana a assustara mais do que ferira já lá iam quarenta e três anos, quarenta e três anos em que fugia a uma festa que não compreendia mas que perniciosa insensatez ano a ano replicava sem refutação, automática e irreflectidamente reproduzida, agora sem graça por não haver quem saiba biselar um vidro ou construir uma janela em ferro forjado a cuja montra possamos sentar-nos observando através dum vidro antigo, trabalhado, biselado, o movimento da rua num qualquer domingo ensolarado.  


sexta-feira, 14 de abril de 2017

428 - POESIA OU PROSA, GOSTOS NÃO SE DISCUTEM ...


Gosto de poesia, contudo deixo desde já bem claro não ser ela a minha praia. Gosto de ler poesia, e se consigo entendê-la, não estou ainda à altura de a depurar, quanto mais de a elaborar duma forma perfeita, elegante, como a prosa que vou tentando e conseguindo umas vezes, outras nem tanto. A prosa sim, é a minha praia e a minha onda, adoro cavalgá-la e, sempre que posso, ou estou lendo ou escrevendo, entre uma e outra coisa venha o diabo e escolha.

Desde cedo a literatura me seduziu e acerca dela poderia dizer o que Sócrates nos disse falando para si mesmo, conhece-te a ti próprio, e eu, quanto mais sei de literatura mais concluo só saber que nada sei. Nunca tive ouvido para a música ou mãos para tocar viola, mas fico feliz com um livro à minha escolha ou com quatro folhas de papel e uma boa esferográfica, deslizando bem, correndo bem sobre o papel e me permita acompanhar as ideias sem que as perca. Falo da prosa claro, porque a poesia demora, tem uma maiêutica dificílima, a formatação demorada, é como uma gestação, é parida a custo, e aqui os cuidados serão antes não esquecer meter a tampa na caneta para que a tinta nunca seque no aparo.

Uma seca a poesia ? Eu não diria, alguma talvez, não a maioria, mas com a poesia chia mais fino, e o que menos conta será a rima. A poesia é do âmbito do transcendente, é uma subjectiva objectividade múltipla, como quem espreita um caleidoscópio ou se delicia com uma mandala. A poesia intima-nos, exige de nós muito mais que uma qualquer prosa, por vezes intimida-nos e tanto nos pode assustar como deslumbrar, comover ou convocar a raiva, a solidariedade, tanto quão a repulsa ou a rejeição.

E não faz isso a prosa ? Claro que faz, é evidente que faz, mas não o faz num verso, num soneto, num poema, numa estrofe, ´esse o ponto fulcral da poesia, a prosa lida com descrições, explicações, narrativas, parágrafos, pontos finais e reticências até nos dar uma imagem, até que percebamos onde quer chegar, a poesia dá-nos imagens, atira-nos com imagens, convoca-nos ante uma imagem baseada em três palavras ou três linhas, confronta-nos com metáforas, toma, pensa, medita, desvenda, traduz, desenrasca-te, bastando uma palavra para nos exigir que saibamos ou tacitamente reconhecer que conhecemos todo um texto, todo um livro, toda uma história, trabalha num patamar diferente a poesia, um degrau elevado, não como o arame farpado e rasteiro que evita as vacas no lameiro, trabalha no arame, no limite, brinca connosco, faz malabarismos, ri-se de nós umas vezes elogiando-nos noutras e, nalguma raras ocasiões condecora-nos.

A poesia não ensina, exige que saibamos, que conheçamos, mas depois, maravilha das maravilhas, torna-se cúmplice, de sentimentos, sensações, e confronta-nos com o que sabemos com o que julgamos saber, sobretudo com aquilo que ignoramos saber. Diria que a poesia nos convoca, nos convida e desafia a entrar e a desvendar o seu mundo imagético cuja diegese a partir desse momento reparte cumplicemente connosco, bandeirantes da sua geografia, aprendizes de feitiçaria, duendes numa floresta de gnomos e gigantes de um mundo nem liliputiano nem dos ciclopes onde se nos torna acelerada a pulsação, precisamente quando reclino a cabeça, fecho os olhos deixando-me transportar, viajar no espaço e no tempo, ou num abraço ternurento, outras vezes sobrevoando uns lábios sequiosos mergulho num corpo quente, abrasando, sendo então que em sobressalto acordo e corro a tomar um duche frio pois a sensibilidade da poesia afoga-me os sentidos num caldeirão em turbilhão, em lume quente, ebulição, fazendo que me sinta João Ratão rodeado de canibais famintos, dançando em transe em redor duma fogueira ameaçando cozer-me em lume brando mas, soltando um urro animal deselegante furto-me ao fantástico e fantasista erotismo sensual do amor poético cuja fantasia, enrolando-me, enleando-me, ameaça quebrar-me submisso ao fogo que ela mesma aviva com ervas de cheiro, rabos de lagartixa e folhas de ulmeiro, cujas fragrâncias me enovelam quixotescamente dentro das palavras que eu próprio murmuro.

E agora ? Agora, outro duche naturalmente …




quarta-feira, 12 de abril de 2017

427 - UMA CASA MILAGROSA * ..............................


Frei Baltazar estava satisfeito, vira-se livre da velha abadia que remontava ao tempo dos romanos, conseguira aproveitar todos os materiais ajudando-se a poupar para o muito ainda a gastar, a satisfação notava-se-lhe nas bochechas avermelhadas que as noviças adoravam repenicar, mas só quando tinham oportunidade e sempre que a irmã Blimunda, a madre superiora, não as estivesse observando.

Frei Bento, dando passinhos mais parecidos com saltinhos percorria o perímetro das obras, mãos cruzadas sobre a pança, impando de contentamento como só um abade sabe impar. Depois de quarenta longos anos conseguiram erguê-la, pô-la de pé, não sem que tenha tido que arrancar grandes exigências aos mesteirais, aos mestres e operários cujas vidas eram passadas ali, mas finalmente ali estava ela, solenemente erguida apontando aos céus numa prece ao divino Senhor.

De modo elegante tinham solucionado o problema das altas paredes, altas e estreitas, altas e finas, atreitas a tombar, mas em simultâneo a solução encontrada evitaria que caísse sobre elas o peso do tecto da cobertura, da abóboda à cúpula, da abside e deambulatório e do baptistério claro não o esqueçamos nem à sua importância.

Durante alguns dias houve festa na vila, arlequins, bobos, aedos, caçadores de faisão no braço, archeiros e cavaleiros, tocadores, todos e cada um no seu mister contribuíram com canções, músicas, habilidades e jogos para as festas daqueles dias de alegria, mas uma preocupação dominava alguns deles, depois de assentarem o tecto que seria da luminosa claridade que deveria preencher a casa de Deus ?

Naquelas finas, graciosas extensas e elegantes paredes teriam que ser rasgadas janelas, teria que ser aberto caminho à luz, mas como evitar que por elas entrasse também a inclemência do clima ?

Ainda a obra não estava completa e já Frei Bruno para ela conduzia as criancinhas na hora da catequese, o seu jeito para contar histórias era um tributo à tradição e à oralidade, tendo sido ele mesmo quem sugeriu ao mesteiral-mor aproveitar aquelas paredes e nelas pintar cenas da vida de cristo, do nascimento à morte, parábolas dos evangelhos, pinturas em cores vivas que o ajudassem na divulgação do exemplo de vida e da palavra de Deus. O mesteiral-mor anuiu num movimento do queixo e desandou, pois tinha que vigiar o trabalho dos canteiros vindos de Carrara e a quem fora entregue uma valiosa quantia para a feitura de uma dúzia de estátuas marmóreas.

Alguns dias depois, vendeu o mesteiral-mor ao mestre artesão da obra e como sendo sua, a ideia de pintarem nas paredes grandes painéis aludindo à vida, obra e exemplo do Senhor, pinturas alusivas aos dez mandamentos por exemplo, ao que o dito artesão, cofiando a barbicha, respondeu: Não poderia ser assim, pois as paredes teriam que ser rasgadas, abertas, inda não sabia como mas teriam, a fim de deixar entrar a luz.

Numa anterior conversa soubera esse artesão, de nome Geraldo, através do comerciante Nacodemo, terem em Itália, em Murano, perto de Veneza, o clã Barovier, uma antiga família de vidreiros, inventado o vidro plano e sobretudo o modo de lhe dar cores, que adicionavam ao vidro e o tornavam ligeiramente opaco mas alegre e lindamente colorido, pelo que em sua mente começou a brotar a ideia de rasgarem as paredes sim, mas preenchendo o espaço com esses vidros, painéis grandes desses vidros às cores, e matutava nisso quando frei Benedito se aproximou com um cesto de ovos assentes em palhinhas.

- Ovos de grifos frei Benedito ?

- Saiba vossa mercê que só após comidos saberá se sim se não, pois que os trouxe para com prazer os ofertar a vossa senhoria.

Quebrado o gelo teve o artesão oportunidade de dar conta ao frade dos seus pensamentos, das paredes rasgadas, do vidro de Murano, da hipótese de painéis coloridos taparem o espaço aberto e protegerem da inclemência do tempo mas permitindo a entrada de luz, podiam mesmo animar a nave com painéis de vidros aos quadrados, ou faixas de diversas cores, um vidro colorido ligeiramente opaco e lindo, tal vidro prestava-se a isso, que achava o bom frade da ideia ?

- E porque não construírem painéis com figuras, aproveitando a diversidade de cores e a habilidade de mestre Nicolau ? Ninguém corta vidro como ele ! Já que não podem pintar as paredes, pois se terão que ser rasgadas, então que não pintem, ao invés de pinturas criem-se desenhos, porque não ? Que pensa vossa senhoria desta minha humilde ideia ?

- Não está mal pensado não padre, os caixilhos vão ser um problema mas tudo se há-de resolver ! Porém, com a ajuda de Deus, nada haverá que mestre Bonifácio não consiga.

Dez anos depois desta conversa era inaugurada a nova catedral, lindas colunas sustentavam por dentro o peso da nave, no exterior os contrafortes, agora desferindo graciosos arcos a que chamaram arcobotantes, escoravam as esbeltas paredes lindamente guarnecidas de painéis coloridos, cada um deles versando um episódio da vida de Cristo, e, beleza das belezas, à medida que os viajantes se aproximavam do templo todos reparavam num enorme círculo encimando a frontaria e que depois de entrarem a todos deslumbrava.

Esse círculo permitia que o sol da manhã irrompesse pela nave, mas também a inundava das várias cores com que o vidro que o preenchia imitava uma rosa, uma mandala, o fundo de um caleidoscópio, coisa mais linda ! exclamavam todos, enquanto as criancinhas se quedavam embevecidas ante as histórias coloridas que as paredes contavam.


Uma menina de dez anos, Leonor de seu nome, com um cãozinho no colo, não descansou enquanto não viu com os seus olhos uma catedral perto de si, adorou, ela que tanto gostava de cores e de desenhar. 


*
https://www.google.pt/search?q=Catedral+medieval+de+Bruges&espv=2&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0ahUKEwiyz82_55_TAhVMkRQKHRKyAaQQsAQIIQ&biw=1024&bih=548#imgrc=mEdxPZ8znefqrM:

 Altar da Igreja dos Salesianos - Évora, onde o vitral tem um efeito meramente decorativo e de aproveitamento da luminosidade natural. 
  Igreja dos Salesianos - Évora, vitral, tem um efeito meramente decorativo e de aproveitamento da luminosidade natural. 
  Igreja dos Salesianos - Évora, vitrais, têm um efeito meramente decorativo e de aproveitamento da luminosidade natural. 
  Igreja dos Salesianos - Évora, vitral, tem um efeito meramente decorativo e de aproveitamento da luminosidade natural. 
 Baptistério da Igreja dos Salesianos - Évora, onde o vitral tem um efeito meramente decorativo e de aproveitamento da luminosidade natural. 

segunda-feira, 10 de abril de 2017

425 - JULGUEI-TE JÁ NO MONTE * …....................



JULGUEI-TE JÁ NO MONTE * …

Quem sabe um dia não lhe poriam Bento? Ou Sofia?

Esvoaçam gulosas as abelhas,
p’los campos e p’los montes,
elegendo lírios e flores de giesta,
num hino à vida, igual ao dos amantes.

Amantes para quem são um sonho os montes,
ou um monte, amor e uma cabana,
o devir, os momentos, os instantes,
onde descansem de sonho ou fantasia insana.

Até mesmo na cozinha, o pote, o mel,
finalmente crestado, lambido, xupado,
as cortinas das janelas um dossel,
a velha pele da carneiro baldaquino improvisado.

De joelhos se saciam no virgo néctar,
se embebedam, se enleiam, quais fiéis devotos,
cada um erguendo ao outro um altar,
mármore rodeado de papoilas onde pousam gafanhotos.

Voam saciadas as abelhas,
p’los montes e p’los campos,
par a par, olhando-se, uma parelha,
sulcada a terra, rasgados horizontes amplos.

E quem sabe, um dia, 
se do enxerto nascerá um rebento,
chamado Bento,
ou da enxertia uma menina, a quem poriam Sofia. 

* Humberto Baião - Évora, 7 de Abril de 2017


quarta-feira, 22 de março de 2017

423 - DUM SÓ GOLPE, COMO A UMA GALINHA *

  Eles

Cumprira a missão de que fora incumbido, não desiludira quem nele confiara, só isso poderia explicar o seu ar feliz, morreu nos meus braços e juro que nunca vira, nem voltei a ver, tão lindo morto, tão feliz morto. Morto mas feliz, e se eu vi gente morrer, e morta… Chorei claro, não sem antes ter gritado umas quantas ordens, mas chorei.

Naquele tempo, situação e lugar não havia nem houve nunca autópsias, nem o feliz morto a teve, mais a mais sabia-se do que tinha falecido, exaustão e desidratação. O soba ordenou a meia dúzia de homens que providenciassem o enterro e designou mais dois que levassem à família e aldeia do morto a triste nova e, descontada a azáfama causada pelas notícias por ele trazidas e que originaram um pandemónio, a vida continuou. 

Também ali havia que enterrar os mortos e cuidar dos vivos, não sendo banal a morte era contudo uma coisa normal, com a qual todos nascemos como nascemos com cor nos olhos, não se saber quando chegará só nos alivia e apimenta a vida, não nos exime dela, morte. Como disse não era banal morrer-se, sendo até muito chorada e lamentada qualquer morte, porém jamais temida. Como se pode temer algo que temos certo desde o primeiro minuto, desde o primeiro choro, desde o primeiro grito ?

Sessenta dos melhores de entre nós voluntariámo-nos para aquela missão, “Galinha do Mato” era uma missão arriscada mas imprescindível, essencial à nossa sobrevivência colectiva, do seu êxito dependeria o bem-estar futuro e a vida de todos na aldeia. Com o passar do tempo os recontros recrudesceram de intensidade deixando há muito de ser recontros para tomarem a regularidade e a dimensão de confrontos, urgia portanto acautelar, prever, assegurar, prevenir, garantir uma posição forte, e todos tinham ouvido bem, eram expectáveis entre dez a vinte por cento de baixas, feridos graves teriam que ser deixados ao seu próprio cuidado, Deus e o destino saberiam que fazer, seria uma operação temerária e, por certo implacavelmente perseguidos na retirada, todavia a vida tem destas coisas, força-nos a estas opções, a vida é feita de escolhas, escolhemos a segurança de todos, a segurança da aldeia, o preço poderá ser alto, só quero a meu lado quem esteja disposto a pagá-lo se necessário.

Não que por esses dias se morresse feliz, mas a morte era companheira diária e inseparável, estava presente em tudo que fazíamos, por isso nunca se pisava em falso, tudo era previsto, antecipado, estudado, planeado, e a estratégia decidida. Cada um sabia exactamente o que fazer e o que dele se pretendia, e todos conheciam o objectivo final e comum, todos sabiam que se arriscavam para o mesmo fim, o bem comum, o bem de todos, sabia-se por que se morria caso se morresse, e como tal ninguém dava um passo em falso, ninguém se desviava do plano traçado, a sorte de cada um dependia de todos e a de todos estava nas mãos de cada um.

A marcha fora penosa, no deserto caminhámos de noite descansando de dia, ao sexto dia parámos, teria que ser dado descanso ao corpo antes de lhe exigirmos o máximo, e limpar armas, rever planos, mandar batedores, esperá-los e ouvi-los, recapitular tudo de novo e de acordo com as novas por eles trazidas, sopesar as forças em presença, redefinir estratégias e tácticas, assinalar alvos e perigos prioritários, combinar uma saída de escape para fuga ou retirada, comer e beber q.b. e dormir antes do esforço final.

Toda a semana caminháramos a pé, numa operação daquele melindre veículos podiam ter-nos traído, são difíceis de esconder, são observados a longa distância e deixam rastos visíveis do ar, deixam fumos, óleos, sobretudo “gritam” mal sejam tocados por qualquer radar, por isso preferimos a marcha, mesmo carregados, e agora tratava-se também de limpar, olear e municiar as armas, ao sétimo dia esperáva-nos um trabalho de monta, o Senhor tinha descansado, mas cabia-nos fazer um bom trabalho nesse dia em que Ele decerto teria os olhos colocados em nós, como tal cada um recolheu-se em si mesmo e rezou as suas orações.
Vós

O regresso dos batedores constituiu uma surpresa de arromba, nada, não havia nada, nem um poste de pé, o próprio vento apagara todas as marcas, só a areia e a terra do chão, ainda empapadas em óleos assinalava o lugar, não fora isso e ninguém diria ter existido ali uma base do SAA, uma base perigosa, uma base ofensiva, uma base de onde partiam todas as surtidas que a nossa aldeia e todo o sul tinham sofrido no último ano. A desolação foi total, mas foi debaixo dela que o regresso se fez, por razões que todos compreenderão esta caminhada pareceu maior e mais cansativa.

Ao sétimo dia do regresso encontrávamo-nos a uma légua da aldeia quando amanheceu, e de imediato toda a gente pôde ver a dispersa mas alta coluna de fumo que se erguia para a sua banda, um batedor esclareceu, «aquilo ser fumo velho, ser fumo com dois dia, dois pa três pá», entreolhámo-nos e num ápice carregámos mochilas e tudo que havia a carregar, o pequeno-almoço ficaria para depois, por agora era meter uma bucha para enganar a fome e dar corda aos sapatos.
Eles

Quanto mais nos aproximávamos maior era a devastação visível, o panorama, a aldeia fora alvo de um ataque em peso na nossa ausência, da aldeia e do aquartelamento nada restava em pé, a brutalidade do ataque tinha apanhado todos completamente de surpresa, tinha sido uma autêntica chacina, pelo calibre dos cartuchos hélicanhões tinham participado, nem foram respeitados velhos nem mulheres, nem crianças e, quando conseguimos efectuar uma contagem minimamente credível calculámos duzentos e quarenta, havia corpos irreconhecíveis, partes de corpos, bocados aleatórios espalhados por toda a parte, era impossível contabiliza-los tal o modo como alguns ficaram, andei quase um mês passado da mioleira, inda assim faltariam cerca de vinte pessoas, teriam tido tempo de fugir ? E porque não regressaram já ?

A vida convive diariamente com a morte, é para a vida que devemos preparar-nos por ser ela o milagre, a morte está certa, pode surgir com mais pressa, ou mais vagar, estar demorada, mas é garantidamente a única certeza e garantia que a vida nos consente. Desperdiçar a vida e temer a morte é um absurdo. Meses atrás aquele negro que em meus braços recebera uma morte feliz salvara-nos a todos, durante dois dias correu para nos avisar, todos lhe ficámos devedores da vida, devido a si o acampamento fora desmontado e abandonado, e quando alguém viera da mata por nós tivera uma desilusão tão grande quão a nossa meia dúzia de dias atrás, encontrara a aldeia deserta, abandonada. Mas desta vez ninguém soubera, ninguém correra a avisar, a matança fora pérfida e excepcionalmente bem planeada. 

A vida é isto, quantas vezes me lembro que se estou vivo o devo a essa grande derrota e desilusão que sofri, eu e mais cinquenta e nove, viver é manter a morte numa corda bamba, a vida é um fluxo, um refluxo, poucos pensam nela mas deviam pensar, muitos pensam na morte quando precisamente esses deviam esquecê-la, descansar, ignorar o devir…

Naturalmente logo houve quem garantisse ter eu uma estrelinha, que já fora a uma guerra e saíra dela vivo, que haverá gente para quem a estrelinha não brilhe tanto como a minha. Gente há que me achará maluco, que achará andar eu ainda passado da mioleira, porém sou bastante certinho e confiável, quero dizer que podeis confiar em mim, que sou pessoa de palavra, normal, sem taras, ainda penso antes de agir, planeio as coisas, não avanço às cegas, prevejo, penso, medito e decido, só depois ajo, e não me afasto um milímetro do que planeei.

Ok, concedo não ser fácil, nem eu caso único, há bué de pessoas que o conseguem, ainda assim entendo que não devemos ser tão rígidos quanto a enfrentar a morte, sim, para alguns será mais fácil enfrentar um exército com uma arma nos braços, para outros puro terror. Como tudo na vida a coragem perante a morte aprende-se, como se aprende a calma, aprende-se e cultiva-se ao longo de uma vida, através da experiência, da sabedoria, da leitura, porque no que concerne à morte, a única coisa que te permitirá será regatear e impor-lhe digidade, a morte aceita-se ou não, nunca será uma questão do momento mas de atitude, sempre foi e será uma questão de atitude perante a vida. 

Carpe diem.

Nós

terça-feira, 21 de março de 2017

422- NOS BRAÇOS DE DAMIÃO COSME...........


O que é um braço, que força tem um braço, ou um de ferro, digo um braço de ferro, ou um abraço, que tamanho, que alcance ? Fiquei matutando nisto depois da Moura, rindo, ter dito que os meus braços quase davam duas voltas em seu redor. O efeito dos meus abraços já o sei, ela faz-se pequenina, encolhe-se, de modo que o meu amplexo quase a submerge. Magrinha, pequenina, ou assim se fazendo, leve, sente-se segura na minha conchinha diz ela, e raro será não a levar nos braços quando tal acontece, depois, na cama larga, mete o nariz debaixo do meu sovaco ou no meu pescoço e, fechando os olhos esconde-se.

Ficara alegre quando a deixei ao sol na varanda, com a Cocoo e os vasos de Physalis, Uva Crisp, framboesas e morangueiros, as suas últimas coqueluches. Ela ao sol e eu fugindo dele, mudei-me para o lado direito da fila de bancos onde o sol não castigava inda que fosse cedo. A viagem até ao sul demoraria umas três horas, ou mais, tempo suficiente para ficar esturrado caso não me acautelasse. Ali ia eu embalado pelo doce balanço da carruagem, o comboio já não cantava pouca-terra- pouca-terra- pouca-terra, nem acusava o toque-toque do passar dos carris, pois não se ouvia, mas o balanço ficara, seria por isso que lhe chamavam pendular ? Fosse ou não por isso eu resistia ao balançar e à sonolência, olhos fechados, pernas esticadas, a mente agarrada à admiração da Moura pela extensão dos meus braços, pela extensão ou pelo aconchego, curioso é também o limite onde com ela chego, quase quase no limits.

Campos, vacas, ovelhas, cabras, um cão e um pastor, um pastor chamado David, reza a história ter dado uma coça num tal Golias, um grandalhão, uma coça é como quem diz, foi mais uma chapada psicológica, com mão, chegou-lhe as mãos à cara digo eu, porque segundo parece foi o braço que lhe valeu, o braço, um braço comprido, a funda e uma pedra com a qual segundo testemunhos lhe vazou um olho, seria no meio da testa, teria sido, seria o gigante um ciclope ? O certo é que o grandalhão tombou, grandes braços devia ter aquele David, e fortes.

Sim, que isto da força com que a pedra é arremessada depende muito dela, do seu peso, mais que da sua forma, do comprimento da funda e naturalmente do comprimento do braço, alavanca e fulcro, lembram-se ? A força que a funda aproveita é a mesma que afasta os planetas que o sol segura e Newton explicou, simplesmente física aplicada, física e pontaria, treino, a funda tornada uma simples extensão do braço, quão extenso ? Vinte, trinta metros, menos ? De qualquer modo mais que a lança do homem pré-histórico que teria no máximo dois metros, dois e meio, inda assim melhor que somente o braço, um metro o braço não ?

Melhor que a descoberta, aproveitamento ou invenção do fogo pelo homem de Neandertal foi a invenção do arco e da flecha, que alcance tem um braço armado com um arco, alcance útil, certeiro, que abata uma fera, um animal, uma ave, quinze metros ? Não seria mau não, talvez as próteses para o braço tenham começado por aí, pela lança, pela funda, pelo arco e flecha, depois a cana de pesca, a besta, a catapulta, a espada, menor distância mas mais prática, mais eficiente em determinados cenários, tão eficiente que os romanos a encurtaram, tornaram bastante curto o gládio, mais manobrável, mais mortífero, mais eficiente, mais apropriado, permitindo um melhor desempenho, incutindo maior despacho à empreitada.

Abraçada a mim como costuma abraçar-me nunca eu seria capaz de atingir a Moura com uma lança, muito menos com uma flecha, dificilmente com uma espada, mas com um gládio seria trigo limpo, era só puxar a culatra atrás, perdão o braço, recuar o cotovelo e apontar-lho, o gládio, avançá-lo e senti-lo entrando-lhe pelas entranhas, pelo ventre macio, mole, não tem barriga a Moura, Deus me perdoe, olha para o que me deu o sono, trespassar a Moura, não que nunca a tenha trespassado, mas noutros sonhos, noutras aventuras, adoro aquela miúda, magrinha, pequenina, levezinha.

É curioso, agora que penso nisto concluo que toda a nossa evolução mais não tem sido que um esforço enorme em estender o braço, em chegar mais longe, chegar onde os outros não cheguem, o longo braço da lei, o braço da morte, o braço do terrorismo, até do terrorismo de estado, a verdade é que quanto mais longo o braço mais gente morre, mais gente morta, mais e mais depressa, mais eficientemente, com maior rentabilidade, rendibilidade, no fundo trata-se de ser ou não ser competitivo e de fazer render o braço, o comprimento do braço.

Os meus braços são mais curtos mas chegam onde chegam os teus, sussurra-me por vezes a Moura encavalitada em mim, abraçada a mim, o peito pressionando-me as costas, aquecendo-me, mimando-me, depois na ponta do braço a mão percorrendo-me, agarrando-me e reinando comigo, pouca-terra- pouca-terra- pouca-terra, como se tivesse na mão um brinquedo, um comboio a vapor, até lhe sentir o xxxxxxsssssss, como se uma válvula libertando a pressão, expelindo vapor, soprando, apitando, ela rindo, eu «doida, doidinha», sim, os braços dela chegam onde chegam os meus, os braços e as mãos, compridas, espalmadas, magras, de unhas cuidadas, umas vezes encarnadas outras vermelhas.

O braço da justiça, o braço da Moura, o braço do amor, o barco do amor, bem e depois, depois da alabarda seguiu-se a pólvora, o mosquete, o canhão, o fuzil, o rifle, a carabina, a metralhadora, o revólver, a pistola, e a tudo isto meteram rodas, ou asas, ou meteram tudo isto num barco, num submarino, Neil Armstrong (Nelo Braçoscompridos) o primeiro homem na lua, o comprido braço da ciência empunhando um V1, ou V2, e Titans, e Saturnos, o meu braço é maior que o teu, mas eu mijo mais longe, e eu mais alto, isto enquanto outros simplesmente se mijam, ou se fodem.

Coimbra, este comboio descendente já deve ir a meio da jornada, jornada ou caminhada, é relativo, tudo é relativo pois foi isso mesmo que disse Einstein, e dispensou os Armstrongs, mas não os V1 nem os V2, nem os Titans, nem os Saturnos, nem a balística, não lhes deu asas mas deu-lhes átomos, átomos e núcleos, neutrões, neutrinos, protões, positrões, tudo capaz de nos apertar os colhões em segundos, e agora  ? Agora ou sim ou sopas, dez marcas de tabaco em trinta segundos, quem diz marcas de tabaco diz de automóveis, ou de cervejas, estamos agarrados pelos tomates, não abraçados nem mimados, mas fodidos percebem ?

Entroncamento, dois terços do caminho feitos, percorridos, andados, entroncamento, cruzamento, púbis, umbigo, adoro beijá-la no ventre, liso, a pele macia, fofinha, cheirosinha, primavera, maçãs verdes, flores, lindos campos, sol, tulipas, lírios, tulipas não, tulipas são as que ela gosta ter à cabeceira numa jarra, numa floreira, à mão, para me oferecer quand je arrive, quando me abraça, e só larga ao despir-se, despe-se sempre com pressa, a correr, como se os dias, e os braços, tivessem fim…

Aproximamo-nos da Funcheira, o comboio soluça e pára num estertor, olho pela janela os campos reverberando, resplandecentes, a uma sombra dois cavalos, uma charrete, alguém segura um pano, um panejão onde se lê “Damião Cosme”, sou eu, esperam-me, óptimo, uma rodada de abraços e pomo-nos a caminho, chegarei a tempo de jantar. 


segunda-feira, 20 de março de 2017

421 - UM CAMPO DA COR DOS TEUS OLHOS ...


              UM CAMPO DA COR DOS TEUS OLHOS ...

Gostava levar-te onde o campo fosse da cor dos teus olhos,
e não houvesse besouros assustando-te,
nem vento sibilante despenteando-te.

Só nós dois, olhos nos olhos,
coração no coração,
pele com pele,
emoção.

Delírio entre os lírios do campo,
onde houvesse giestas e flores de colorida pétalas,
e voassem abelhas sobre o mel e as colmeias,
inebriando-me o teu olor florido de maçã.

E tu, uma flor aberta,
me oferecesses essa flor, um ramo, um ramalhete,
deixando-me alegre, girando como torniquete,
ébrio e feliz,
farto, satisfeito, peito pleno, plexo, amplexo.

Pele com pele,
peito com peito,
coração com coração,
coração no coração,
batida, batimento, vida,
minha vida,

tu …




Humberto Baião - Évora, segunda feira, 20-03-2017 - 15:17h

segunda-feira, 13 de março de 2017

420 - TRÊS DE AREIA E DOIS DE CAL .....................


Hoje fui surpreendido, bem não fui surpreendido, surpreenderam-me, e considero não só agradável essa surpresa, como terei que a considerar uma inaudita surpresa, daquelas que de todo não esperamos e que, embora nos deixem de cara à banda, nos deixam feliz o coração. Tanta felicidade porque hoje trouxe para casa um almoço que era uma trampa. Vamos por partes, primeiro a sopa, depois o segundo e por fim a sobremesa.

Quando eu e a Luisinha andamos mais atarefados, assoberbados ou incapacitados, por falta de tempo, de paciência seja o que for, socorremo-nos duma cantina e refeitório de funcionários públicos aqui próxima de casa. Hoje, umas lulas mal feitas como a merda e a saberem mal como o caraças acabaram por gerar uma conversa interessante entre nós, e coisa incrível, entre essas lulas intragáveis e um leite creme flutuando em canela houve tempo para a gente, ela ter-me-ia repreendido aqui e obrigado a usar o nós, ela, a Luisinha, mas ia eu dizendo que entre as duas coisas ainda houve tempo para nós nos descobrirmos, ou eu descobrir coisas novas e surpreendentes sobre ela depois de quarenta anos de casados.

- Pois é Bertinho, esta coisa da cozinha, de cozinhar, não é um dom que Deus tenha concedido a algumas, ou alguns, evidentemente há quem tenha mais jeito para a coisa, mais habilidade, mas isso acontece com electricistas, médicos, médicas, canalizadores, enfermeiras, etc., o problema é que muita gente esquece que cozinhar envolve compreender as ciências físico químicas que, pelo menos num aspecto básico todas estudámos na escola.

- Sim, eu também as estudei mas nunca as liguei à cozinha Luisinha.

- Pois é mas tu tinhas a Mocidade Portuguesa, e o dia do Lusito, e a Bufa, e eu tinha Lavoures e uma coisa que salvo erro se chamava Economia Doméstica a que muita gente nem ligava, não apreciava, calhei estar desperta, não tanto por a minha avó Joaquina ser uma excelsa cozinheira, como sabes, ou até a minha mãe que Deus tem, mas sobretudo por ter tido como mestra, naquele caso dizia-se mestra e não professora, uma mulher genial, ainda há-de aparecer perante mim um homem tão genial como essa mestra Dominica sabes ?

- E eu pá ?? E eu ? EU ????? Olha que tu também…

A mestra Dominica não ensinava, só falava, contava histórias, mas aquela mulher tinha o dom de ensinar, constava até não ser lá muito boa cozinheira, a verdade é que jamais a esqueci, a ela e às suas soluções, solutos, solventes, concentrados, reacções e reagentes, proporções, ocorrências, saturação, densidade, tempo e temperatura, física pura Bertinho, física e química filho, era termodinâmica, ou seja é física, é o estudo das causas e efeitos das mudanças que a temperatura potencia, ou antes propicia Bertinho, quer quanto à temperatura em si quer quanto à pressão e ao volume, por isso em cozinha nos socorremos de panelas de pressão, e se não tivermos cuidado com elas a pressão faz aumentar as coisas e sai tudo pelo fuinho de segurança, por esta válvulazinha, já me tens ajudado a limpar a porcaria dos azulejos da cozinha… Calor é energia querido, energia dinâmica, movimento, a termodinâmica essa energia não só coze, cozinha os alimentos, os transforma, como cria movimento, cozinha mas também fez andar as primeiras máquinas a vapor, aquela dona ou mestra Dominica era um must, eu ficava duas horas de boca aberta ouvindo-a, babando-me, e para ser justa só uns anos mais tarde a apreciei bem e fui capaz de reconhecer quanto de excepcional aquela mulher era.

- Essa não sabia eu Luisinha, nem fazia a mínima ideia, sabia que tinhas tido essas disciplinas claro, todas vocês tinham, mas que te tivessem impressionado tanto nunca teria acreditado. Mas essa do tempo e da temperatura alterarem sabor e textura ta boa, alteram a química, ta bem visto sim senhora, e o segredo no saber dosear a coisa, e mais um cadinho disto e daquilo, ter mão no acafrão...

- Não é uma questão de impressionar, foi antes uma questão de saber ensinar, a tal ponto que quando tive ciências já estava familiarizada e conhecia os termos, foi-me portanto mais fácil aprender ciências, ao mesmo tempo facilitou-me a compreensão da matéria de Economia Doméstica e do acto de cozinhar, acto velho como o homem, que só depois da descoberta do fogo e de começar a cozinhar ainda que toscamente os alimentos viu as calorias durarem mais tempo, o estômago despender menos esforço a moer tudo, moer e desfazer, e lá está a química a funcionar, os sucos solventes, os ácidos reagentes, a enterogastrona, a gastrina o suco pancreático, a bílis injectando química naquilo, a solução transformando-se em quimo, depois em quilo, o cérebro crescendo, a raça evoluindo, não sei já bem a ordem das coisas e alguns nomes me hão-de falhar aqui mas no essencial era isto, era e é isto que se passa, no estômago, nos intestinos, mas muito antes numa panela, numa caçarola, num tacho, numa frigideira, é alquimia, cozinhar é ciência e alquimia, claro que também um pouco de bom senso e intuição q.b. a própria expressão q.b. deriva de deitar ou acrescentar a quantidade e o reagente certos, ou a coisa dá porcaria… 

- Tenho que confessar que me surpreendes, caraças Luisinha, quarenta anos depois e quando pensava não seres novidade nenhuma para mim sais-me com uma aula de ciências físico químicas que me deixa de cara à banda, esta trampa já arrefeceu, antes assim, está intragável não está Luisinha ?

- Bertinho, até quando eu deito bicarbonato de sódio na panela para ajudar a cozer os grãos nada mais estou fazendo que antecipando trabalho que caberia salvo erro ao intestino, por isso quando tu comes os grãos irás ter menos trabalho a digeri-los, d’outro modo o bicarbonato de sódio só entraria em acção quando o “bolo” o quimo chegasse ao intestino, e assim quando fores à casa de banho graças a este meu truque de magia alquímica até fazes mais molinho amorinho eheheheh !  

- Para quem comeu um almoço de caca estás muito bem-disposta, bem, tu na verdade nem comeste, insiste na fruta querida, não podes passar em branco, logo lanchamos mais cedo querida.  

- Estou sim, bem-disposta e grata àquela mulher que já não recordava há muitos anos, estávamos em 73, em 73 ou 74 mas lembro bem que foi antes do 25 de Abril, o que não recordo bem foi se ainda na Escola de Santa Clara ou já na Preparatória da Rua Mendo Estevens, frente ao jardim do Bacalhau, e lembro que foi antes do 25 de Abril porque com o 25 de Abril ela desapareceu, desapareceu de Évora, levou sumiço, quero dizer levou o ano até ao fim, até Julho, depois nunca mais ninguém a viu por cá, a mim deixou-me saudades, saudades e uma dívida da qual somente passados anos tomei conhecimento, talvez porque se vivia no velho regime ela ao dar uma receita jamais chamava os bois pelos nomes, nunca nos deu uma receita de frango em tomate, as receitas dela eram sempre Frango à Anne Frank, Espargos à Catarina Eugénia, Cação à maneira de Carolina Beatriz Ângelo, Pezinhos à moda de Ana Castro Osório, Peixinhos da horta como os de D. Teresa Horta, Rolo de Carne de Emmeline Pankhurst, Polvo à Maud Watts, Os Mil Bolinhos de Millicent Fawcett ou Ensopado à maneira de Emily Wilding Davison, curiosamente nunca mas nunca deu a mais pequena explicação quanto a quem eram todas aquelas mulheres que tomámos naturalmente por excelsas cozinheiras de fama mundial.

- E afinal não eram ? Se não eram cozinheiras o que eram então ?

- Não imaginas Bertinho o choque que tive quando pelos meus quinze ou dezasseis anos ouvi ou li pela primeira vez o nome de Anne Frank, claro que quis logo saber tudo sobre a tal cozinheira da receita de frango, imaginas o meu espanto quando vi quem era Anne Frank, o espanto virou curiosidade, corri a saber quem eram as outras cozinheiras e nessa tarde chorei baba e ranho agarrada a uma enciclopédia nova que chegara à biblioteca, tantos anos depois D. Dominica acabara de me dar a sua última lição de culinária e nesse momento amei-a tanto quanto à minha mãe e à minha avó Joaquina.

Confesso que também eu fiquei impressionado com esta mulher, esta D. Dominica, professora Dominica de quem a Luisinha nem o apelido recorda, é bom, é reconfortante saber que mesmo nos tempos mais fumegantes do velho regime, fumegantes pois de cozinha e cozinhados tratamos, houve gente que não se rendeu, que não temeu, que foi exemplo quando ser exemplo era raro e exemplar, era sobretudo perigoso e exigia coragem inaudita, ao invés de agora que se calam, que comem e calam, que engolem e calam, que podiam gritar e se calam, todos, ou quase todos, no mínimo muitos, demasiados…  

Três de areia e dois de cal, não me ocorreu dar outro título a esta história em que o almoço servido parece ter sido confeccionado tal qual a massa dos mestres, dos trolhas, a balde, devem ter atirado para o caldeirão as lulas, cebolas e pimentão, uma mão cheia de sal, um saquinho de cravinho, um frasco de noz moscada, uma mão cheia de salsa e outra de coisa nenhuma, tudo ao molhe e fé em Deus, ignorando as reacções destes reagentes perigosíssimos, piores que nitroglicerina e a usar com parcimónia. Por isto, por cozinhar ser perigoso me lembrei de escrever e vos deixar de sobreaviso após esta conversa c’a Luisinha, e continuo a reiterar ter em boa verdade ficado estupefacto, 40 anos depois ainda aprendo coisas sobre ela, coisas que, juro-vos, não sabia nem imaginava, e olhem que até com a canela é preciso muito cuidado e cautela. Esta vida …  

segunda-feira, 6 de março de 2017

419 - MARIAZINHA BUSTLE ROSEBUD ...........



O meu amigo Nuno não, não é assim, raramente o vejo preocupado, pelo menos preocupado com o que dele pensem, só duas coisas lhe interessam e o fazem sair do sério, ou nele entrar, o telemóvel GS5 e as bisnagas, as paletas, os aerossóis, as telas, muros, portões, paredes, haja pano e tintas e é vê-lo feliz, ela não, ela é mais a imagem, a postura, o olor, os quebrantos ou requebros muito à séc. XIX e nem duvido que ainda um dia me apareça de bustle, aquela armação de arame, vime ou madeira sob os vestidos, vestidos que adora, como adora os chapéus e as cores em especial logo pela manhã !

- Mas que estão vocês para aí cochichando, ou estão a cascar em mim ?

Era a Mariazinha, essa amiga que também abraçou a arte, faz restauros, tem bom gosto e gosta muito de mim, a malta pensa que o restauro é só tintas e pincéis mas enganam-se, mas foi aí que ela lhes tomou o gosto e depois é ela quem faz tudo em casa, tudo no que aos restauros artísticos concerne, menos a parte da electricidade, da qual tem um medo que se pela, pela de ficar com os cabelos em pé, ou sem eles, ora está a coisa explicada, a coisa é a paixão dela, os restauros, e até os materiais e a sua natureza ela tem que conhecer, e quando foram e não foram usados, o que muitas vezes permite até identificar quem há mil anos ou quinhentos os usou, quem pintou ou não pintou isto ou aquilo, como eu a entendo, e entendo-a por já ter sentido ser a ignorância um empilhador que nos tira o fardo de cima, o saber ocupa lugar e pesa, mas infelizmente nestes nossos dias há muita gente, demasiada gente que não alimenta vontadinha nenhuma de o carregar...
 
Ora tendo ela chegado mais tarde que todos à tertúlia da mesa do “Café Com Todos” lá lhe expliquei ao ouvido quem era o Silva, o que se tinha passado, há quantos anos, aquela coisa da espinha atravessada, e não fosse o suave perfume que dela emanava e ter-me – ia ficado certamente por ali mas assim, quem resiste, eu não, e vai daí contei-lhe a história e a vida do Silva quase desde pequenino.

Há perfumes que nos entopem as narinas, que nos provocam até dificuldades de respiração e dos quais pelo menos eu tenho o cuidado de me afastar, deixam-nos de bom senso e de raciocínio embotados, mas outros há meus amigos que dá gosto inalar, leves, insinuantes, uma emanação que queremos absorver, sorver, um tapete mágico em que a gente flutua, flutua e esquece, as horas, o lugar, o motivo, a razão, o móbil, e ficamo-nos por ali, presos a não sei que inexplicáveis aromas, ou aroma, os sentidos tomados, os sentidos tolhidos, fascinados, deslumbrados, narinas dilatadas, o cogito inebriado, o tempo parado, a alma divagando no éter como as ondas hertzianas, sim essas, as da rádio, nós embevecidos ante o mundo a nossos pés, eu nunca soube ou não me lembro do significado de Rosebud, lembro o filme, vi-o até ao fim umas dez vezes, e agora perdi-me, falávamos de perfumes e da Mariazinha mas a que propósito já não sei de todo, ela tem destas coisas, tem classe, tem patine, tem, tem, tem, mas de que falava eu, quem souber ou adivinhe que mo recorde. Para que tenham uma ideia desta Mariazinha é uma amiga de infância de Benedita, ali nada e criada e que eu conheci quando comecei a namorá-la, namorá-la à Luisinha pois Benedita era, como disse, a terra onde morámos em crianças. Está divorciada, teve um casamento que nunca funcionou bem, e ele era como ela é, ele era e é, e ainda são ambos disfuncionais, desgraças, todos os filhos acabaram, sendo disfuncionais… 

Naquela casa nunca havia horários para nada, regras para nada, ele funcionava sem lhe dar cavaco, ela fazia o mesmo, uma vez no mesmo sábado apareceram com dois Audi A4 novos que tinham comprado, separadamente, porque cada um deles sabia por conversas ligeiras entre si que aquele era o carro preferido e ideal para a família…. Outra vez ela, já depois de divorciada, foi ao stand da Peugeot tentar a substituição dos pneus a um outro carro que então tinha, um carro já com três anos, portanto velho, velhíssimo, acabou vindo de lá com um carrão novo que custou a pagar mas lamentava-se de não saber como a coisa tinha acontecido… Era tudo assim. Sendo professora imagino o respeito, o descanso e a concentração dos estudantes, se vos ponho a par destes pormenores é tão só para termos uma ideia do género da madame Bovary que encarna esta Mariazinha Bustle Rosebud ou antes esta encarna aquela…

 Mariazinha era louquinha e fisgou-me o coração muito cedo, numa tarde de verão em que, atrás de um molhe de estevas no quintal da “Padaria Zambujal” onde brincávamos me puxou pelos suspensórios e, como quem leva as coisas a brincar se virou para mim e me disse:

- Bertinho se um dia formos para a cama tratas-me por meu capitão ?

- Claro que sim capitão Maria, mas olhe meu capitão ou fazemos da cama um barco ou vamos precisar dum barco a sério ou no mínimo dum bom mastro !

- Eu sei meu marujinho eu sei, e quero um mastro bem em pé, pois deitado não vale de nada não serve para nada, e eu quero sentir as velas bem enfunadas Bertinho.

-Tu mandas Maria, és o capitão, perdão o senhor manda é o capitão, sabes capitoa, bem sei que não és preta mas gosto desse teu cabelo, dessa carapinha desgrenhada, sabe Deus por causa de quê minha capitã.

Há coisas no nosso subconsciente de que por vezes nem nos apercebemos, gaiatos já nos adorávamos, depois crescemos, eu segui Veterinária e ela Arte & História, quem sabe se influenciados por brincarmos às vaquinhas e aos iogurtes, aos pais e às mães, aos médicos e enfermeiras, porem tantas vezes brincámos à Florbela Espanca, e ao Túlio Espanca, mas nenhum de nós seguiu literatura, ou poesia, seguiu ela a especialidade de restauro, quem sabe se impressionada pelos frescos decadentes das igrejas onde nos acoitávamos, quem nos explica o subconsciente, quem além de Freud, que eu saiba ninguém cabalmente, apenas sabemos haver para tudo e todos razões que a razão desconhece.