quarta-feira, 16 de agosto de 2017

453 - Ó ROSINHA OLHA A SNRa. MARQUESA !!!!







Há uns dias para responder com exactidão a questão que se me deparara e não querendo desiludir um amigo, embrenhei-me nos cartapácios de história tendo a dado momento sido casual e inadvertidamente confrontado com o deslumbramento de Leonor. Expectante estaquei, fiquei ali parado, seduzido, fascinado, encantado, na realidade pasmado, imaginando-me também eu passível de ser acometido e tomado por tais alumbramentos, êxtases, entregas e paixões.

Certamente outros que não os que agora me prendem, seduzem ou conquistam, a variedade de escolhas à disposição seria bem menor, como menor seria o leque de oportunidades ou possibilidades de realização, sobretudo sendo-se mulher (não estou a ser machista ó Mariazinha marquesa de Índigo), como teria sido o caso de Teresa de Ávila (1515 – 1582), a propósito e na sequência de cuja consulta vim a lembrar-me de uma outra mulher de peso, ou contrapeso, Leonor d’Almeida, porque nem crente nem devota, ao invés de Teresa de Ávila, mais conhecida entre nós como Santa Teresa de Jesus, nascida Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, carmelita que viveu o auge do misticismo católico, o mesmo misticismo que mais tarde pesaria à nossa forçada penitente, a boa Leonor de Almeida, de todos conhecida por Marquesa de Alorna, cuja vida daria um filme, um livro já deu, a Rosinha adorará lê-lo de certezinha seja ou não escrito pela Stilwell. Este a que me refiro devemos agradecê-lo à escritora Maria João Lopo de Carvalho que em nada fica atrás da Isabel a não ser no abecedário e no arquivo.

Maria João Lopo de Carvalho trabalhou magistralmente o romantismo e a penitência de que se revestiu a vida da nossa boa D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, que “escrevia poemas à secreta luz da lua enquanto ouvia o espaço incerto das raízes do seu tempo sentindo em si o motim e depois o desconcerto”,* ou seja, uma avalanche de alumbramentos, êxtases, entregas e paixões, enfim, de emoções insatisfeitas cujo sentir plasmou na poesia, mau grado as condições em que escrevia, e sem querer fiz poesia, o que só prova que a respeito de inspiração também eu terei os meus dias…

Teresa de Ávila começou por ser uma noviça carmelita, católica, vindo a acabar os seus dias rodeada de misticismo tendo sido canonizada ainda no século XVI, o século em que viveu, e somente quarenta anos após a morte. Não estarão desligados da sua ascensão aos céus e na hierarquia católica os factos importantíssimos atribuídos à sua actuação durante a Contra Reforma, numa Castela ou Espanha doentiamente católica. Naturalmente foi nesse contexto que obtiveram protecção e divulgação as suas obras sobre a vida contemplativa através da oração mental, nesta época de caça às bruxas, íncubos e mafarricos somente alumbramentos, êxtases, entregas e paixões místicas eram aceites, fenómenos de que os seus leitores eram alvo ou se diziam possuídos. Não havendo cinema, na ausência de internet, faltando-lhes o Facebook, o Twitter e o Instagram que restava à populaça que não o misticismo ? Interessante notar que Miguel Cervantes e o tal D. Quixote de La Mancha viveram por esta época.

O cerne do pensamento místico de Santa Teresa era a ascensão da alma em quatro estágios. O primeiro - "oração mental" o segundo - "oração de silêncio" o terceiro - "devoção de união" e o quarto - "devoção do êxtase ou arrebatamento" Santa Teresa foi uma importante autora da oração mental e detém uma posição entre os autores da teologia mística única. Em todas as suas obras relata as suas próprias experiências e, ajudada por uma profunda perspicácia e capacidade analítica, explica-as de forma claríssima. A sua definição de "oração contemplativa" foi aproveitada pela Igreja Católica que a integrou no Catecismo: "Oração contemplativa, é nada mais que uma partilha íntima entre amigos; significa dedicarmo-nos frequentemente tempo para estar sozinhos ou com quem sabemos que nos ama". Escritas com fins didácticos, as suas obras encontram-se facilmente na literatura mística da Igreja Católica destinadas a difundir a fé e a devoção entre os crentes. Devido à sua actuação na luta desenvolvida pela Contra Reforma foi-lhe dada a oportunidade de reformar profundamente a Ordem Carmelita sendo considerada co-fundadora da nova Ordem dos Carmelitas Descalços. E quanto à nossa boa Leonor de Almeida, a nossa marquesinha de Alorna que podemos dizer ?   


Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre 1750-1839 foi uma nobre e poetisa portuguesa conhecida nos anais da poesia por "Alcipe". De sangue azul, era filha de D. João de Almeida Portugal, segundo marquês de Alorna e quinto conde de Assumar família perseguida pelo Marquês de Pombal sob acusação de parentesco aos Távoras. A família de Leonor de Almeida foi acusada do empréstimo duma espingarda a um dos conjurados e Leonor foi encerrada como prisioneira com a mãe e a irmã no convento de São Félix em Chelas, de 1758 a 1777, aos 8 anos de idade, tendo o seu infortúnio durado dezoito anos, dos 8 aos 27 anos. Leonor fora claramente malfadada ao nascer e teve além disso uma infância atribulada, os avós maternos executados barbaramente, o pai preso e encarcerado na Torre de Belém e no forte da Junqueira, todos devido a suspeitas de envolvimento no crime dos Távoras.

 Na morte de el-rei D. José, sua filha, e futura rainha D. Maria I, mandou finalmente libertar os prisioneiros do Estado. Durante esses dezoito anos de cativeiro Leonor não deixou contudo de receber uma educação esmerada e uma formação completíssima, além dos custos do cativeiro soube estudar e dedicar-se a trabalhos artísticos e literários, entre outras actividades que lhe são conhecidas sabe-se que Leonor se entregou à pintura e se dedicou à enfermagem, tendo trabalhado como cozinheira e organista do convento. Conhecia várias línguas, desenhava e pintava admiravelmente, possuía vasta instrução científica, e o seu carácter era apesar de tudo afável, amenizando com meiguice e candura as amarguras da mãe e de outros desditosos e desditosas. A audácia de ter afrontado a ira do Marquês de Pombal tornaram-na digna, considerada e respeitada.

Moralmente desgastada saiu do convento e da clausura somente aos vinte e sete anos, demasiado e psicologicamente afectada para que sua poesia pudesse ser um risonho passatempo, o que todavia não obstou a ter escrito quase toda a poesia na prisão Convento de Chelas. Apesar das circunstâncias deixou-nos um legado de composições poéticas interessantes, com uma expressão romântica, demonstrando uma superior e romântica sensibilidade, sobretudo se tivermos em conta as atribulações a que a vida conventual e de cativeiro a obrigaram. Duas mulheres que a história resguardou, uma por ter vivido à custa do misticismo católico, escrito uns livros de orações e um catecismo, e a outra por ter sofrido as agruras da clausura religiosa, publicado obras de mérito cientifico, poetisa de se lhe tirar o chapéu e não me admira ter sido sempre avessa a crenças a fé e a devoções, de crente ou devota Leonor nunca deu mostras. 

 A sua longa vida de nobre dama de corte e de poetisa foi todavia ricamente preenchida, e vivida, quer em Portugal quer no estrangeiro, era dama da Ordem da Cruz Estrelada, da Alemanha, valendo a pena ler com vagar o livro de Maria João Lopo de Carvalho e dar atenção à sua biografia e bibliografia. Leonor de Almeida contaria perto de noventa anos quando foi visitada pelo Marquês de Fronteira, acabara de chegar do estrangeiro e mal D. Maria II a soube entrada em Lisboa como prova de apreço concedeu-lhe de imediato a banda da ordem de Santa Isabel, e renovou-lhe os títulos de 6.ª condessa de Assumar e 4.ª marquesa de Alorna por decreto de 26 de Outubro de 1833.

Faleceu tão formosa e tão segura senhora a 11 de Outubro de 1839 no Palácio de Fronteira, propriedade do Marquês de Fronteira, aproveitando eu para vos confessar ter o último destes marqueses, D. Fernando de Mascarenhas* igualmente Conde da Torre, sido meu professor das cadeiras de Teoria da História, bom tipo, gordinho baixo e simpático mas que me deixou perplexo e em vacilante mais de uma hora, eu chegara atrasado à primeira aula, ficando em dúvida se seria um ou uma professora, tinha uma voz de falsete (não tem que ver com falsidade) e um cabelo encaracolado lindo e louro encimando rubicundas bochechas, inda que não fosse essa a razão pela qual lhe chamavam o Marquês Vermelho. Mas voltemos à nossa boa Marquesa de Alorna pois em mim não corre sangue azul nas veias, para vos dizer que faleceu vinte dias antes de completar 89 anos de vida, tendo demonstrado invulgar longevidade para essa época. Foi sepultada no dia seguinte em jazigo particular, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, onde poderemos chorá-la. 

* Maria Teresa Horta – Poésis – Lisboa, D. Quixote, pág. 217 


















quinta-feira, 10 de agosto de 2017

452 - PIV & POV by Maria Luísa Baião * .....................


Dois gatinhos costumam rondar a minha casa, não fossem reais e diria que um é o negativo do outro. Um é branco, com malhas pretas, o outro, preto com malhas brancas. Onde um é branco, o outro é preto, e vice-versa, qualquer deles mais manso que uma máquina fotográfica. Além de brincalhões são glutões, nunca regatearam a comida de cão que lhes atiro, e pareço ser a única na rua que não temem, correm mesmo para mim quando me vêem. 

Até há algum tempo atrás andei curiosa, sem que soubesse de quem eram pertença, vim a sabê-lo hoje mesmo, ao mesmo tempo que percebi porque me não obedeciam, apesar de mostrarem por mim uma simpatia fora do habitual. É que embora portugueses, falam moldavo, e os seus nomes, numa tradução mais fonética que gráfica, significam Lindo, um, Bonito, o outro.

O Lindo e o Bonito pertencem a um de muitos imigrantes que “vivem” nas e das obras frente à minha casa. O dono, “Régéchiv”(?), é um simpático homem de trinta anos, engenheiro químico de profissão, a quem o destino trocou as voltas e as ferramentas, do que resultou um ser bizarro, de modos educados e maneiras suaves, num corpo de Adónis onde brilham dois olhos tão azuis que impressionam, como nos impressionam as suas mãos calejadas que não escondem todavia o traço fino que as desenhou,  fazendo com que mais estranho nos pareça o estereótipo de servente de pedreiro que todas nós intuímos.

Lindo um, bonito o outro, são os filhos, de nove e onze anos, cuja foto, amarrotada e amarelecida me mostrou, a preto e branco, tirada numa terra onde as cores parecem não existir, a julgar pelo que ele mesmo me contou. Na mesma carteira, ao lado do lindo e do bonito, uma mulher loira daquelas a quem por cá se costuma assobiar, razão pela qual, me segredou ele, a usa no bolso da camisa, bem junto ao coração.

Está entre nós há poucos meses, mas já domina o português menos mal, coisa que lhe tem dado mais dificuldade que o manejo de pás, martelos e picaretas, com que agora tem que haver-se sendo pau para toda a obra. Do mal o menos, afirmou largando um sorriso feliz, que na sua terra morria de fome, não porque não tivesse emprego, mas porque a fábrica, sem encomendas, não tinha com que lhe pagar. Trabalha entre nós dez a doze horas por dia, seis a sete dias por semana, e arrecada limpos cerca de trinta vezes o que por lá conseguia no mesmo espaço de tempo. Manda para a família um quarto desse valor, o restante amealha cá, para que quando os seus possam vir, terem com que começar uma nova vida. No entretanto todos os quatro dias lhes telefona, o que lhe sai caro mas não lamenta.

Adora Portugal. Porque não ficou na Alemanha, ou na França, onde poderia ganhar mais  ? Simples, aqui há falta de profissionais especializados, e espera que esta situação seja passageira, até que o domínio da língua e a oportunidade lhe permitam vir a trabalhar no seu ramo. De entre os seus conterrâneos na mesma situação só os médicos não conseguem “cirurgiar” por cá, me contou, não porque não sejam bons médicos, mas porque as habilitações não são reconhecidas, o que irá suceder-lhe, mas se um cirurgião não pode exercer, um engenheiro pode sempre fazê-lo, ainda que não como quadro superior responsável.

Fiquei da nossa conversa com uma solene impressão que na Moldávia conhecem melhor do que nós as lacunas dos nossos recursos humanos e a nossa falta de formação e especialização em todas as áreas, o que faz com que, a escolha do nosso país seja para eles mais rentável a médio e longo prazo. Que aventuras terá este homem para contar ? que sonhos loiros lhe povoarão a mente no negrume das noites passadas na barraca em que se acoita ? que passeios percorrerá o seu imaginário de mãos dadas com o bom e o bonito ? que amor se está forjando no tempo e na distância que lhe coarctam a vida ? Que estranhas forças nos dá a mente e a vontade quando o queremos ? Porque as não temos tantas (os) de nós, sempre esperando que outros  façam ? É por eles que esperamos ? Moldavos, romenos, ucranianos ?

Ou por D. Sebastião?  

* Publicado in DIÁRIO DO SUL - Coluna “Kota de Mulher” em 07-06-2002 by Maria Luísa Baião

451 - GATOS PRETOS, GATOS BRANCOS by Maria Luísa Baião * texto integral

   

Também eu sou testemunha… pesa-me a memória com tanto testemunho. Mais um oráculo…

Fui criada desde menina entre tabernas, à rua de Machede a do Xico Fofa, das favas e batatas fritas, que adorava e cujos pacotes em papel pardo ostentava com orgulho desafiando a inveja das amigas. Do outro lado do quarteirão, à Mendo Estevens, a do velho Patrício, acerca de quem, só crescida soube ser o apelido que lhe coubera em sorte, porquanto pensava para com os meus botões ser ele patrício de todos quantos se lhe encostavam ao balcão. Em cima desse balcão me punha meu pai, qual boneca, dançando ao ritmo das vozes e lamentos que os homens soltavam.

Ali, no Farrobo, onde passei a meninice, já então existiam oráculos, um deles de tal ordem, que por inconveniente toda a gente evitava mudando de passeio. Dava pelo nome de Perna-de-pau, e nem me lembro dele lúcido nem falho das razões que então os homens escondiam, de que só falavam em surdina e que somente o poeta ousou gritar, lá de longe, de Argel. Também o Perna-de-pau muitas vezes exigia a decifração dos seus ditos, não que fosse menos que António Aleixo, não lhe apanhara fora o jeito de emparelhar as palavras. E havia sempre gatos pretos nas janelas.

Então sucedia descer a Mendo Estevens ruminando os significados do que ele dissera, acabando a rua destrinçando os nós de cada uma das suas homílias, para quedar-me muda e surda, vendo os homens que na espartaria do senhor Gaudêncio atavam os nós das redes/camas, sem que nunca tivessem logrado desatar os das suas vidas. Ainda hoje o senhor Gaudêncio, apesar de metade de nós não fazerem já a mínima ideia do que seja uma espartaria, ostenta com um orgulho que lhe louva as origens, encimando o estabelecimento junto à Praça do Geraldo, “Espartaria e Cordoaria Gaudêncio”, para mim o homem que consubstanciou o primeiro e mais notável choque tecnológico a que assisti, quando substituiu, com visão e engenho, o esparto, o linho e o sisal pelo nylon.

O Farrobo era um mundo à parte. A história estuda da urbe a judiaria e a mouraria, a sociologia devia estudar o Farrobo, onde conviviam lado a lado, subsistência e alegria. E lembro-me tão bem de gatos brancos nas janelas. Ali vida era sobrevivência tecida em filigrana. Pouco mais avançámos desde a chegada dessa tecnologia aos mouros da cordoaria. Em miúda decifrava eu os odores se calhava passar à taberna do Carranca, e entretinha-me, adivinhando e ordenando por intensidades, as ervas com que compunha os ramalhetes que lhe garantiam casa cheia, rememorando tudo quanto minha avó Joaquina me ensinara.


Fui um destes dias à igreja, saí dela lembrando as revistas de encher o olho da papelaria do senhor Manuel, Papelaria Angola, capas de revistas e vitrais, não vi a diferença. Gatos pretos, gatos brancos, são iguais. Bom homem o senhor Manuel, Deus lhe tenha a alma em descanso. Uma vida dedicada a vender sonhos, da Crónica Feminina ao Corin Tellado, depois da Maria e do Século Ilustrado. Encheu de sonhos as raparigas da Pró-têxtil, depois Melka, que nunca vestiram uma camisa digna desse nome nem encheram a barriga. Mas emprenharam de sonhos, o melhor para quem vê recusada a vida. O soalho da igreja, o mesmo cheiro a lavado na relojoaria do senhor Cabral, ali à Porta Nova. Sempre remendando as horas sem nunca ter tido uma de sorte para si. Sempre amável, sorridente, sempre com um olho proeminente virado para os mecanismos, outro para os ciganos. Sempre pobre e sempre contente. De vez em quando caía-lhe o olho de ver e fazia que nos não via. Pausa, algumas palavras simpáticas para nós, e o soalho sempre lavado, sempre exalando aquele odor a madeira molhada de que ainda hoje gosto. Talvez por ter sido simpático, talvez pelos despertadores ciosos dos momentos programados, talvez pelas campainhas e caixas reluzentes de alguns que também vendia fiados. O tempo a prestações, hoje nem o tempo a estações. Nem vai havendo gatos, nem pretos nem brancos.

E a Drogaria Bacharel? Que o saudoso senhor Silva deixou ao empregado mais fiel? Tão fiel que está hoje como sempre. Ah ! Falta-lhe agora a máquina de dar pontos nas meias de vidro, falta, pois não faltara, ele mesmo tivera o cuidado de pegar nessa senhora, nessa colega, p’ra juntos remendarem as próprias vidas, casaram e foram muito felizes, ainda são. Meias que ninguém hoje remenda, remenda-se a vida quando e se ela tiver remendo. Mas nesses tempos os jardins tinham peixinhos, livros, por vezes música e orquestras no coreto, a data nos canteiros, cerzida a flores e amor de jardineiros. Tudo eram testemunhos, oráculos, nem uns nem outros os tempos hoje consentem. As gentes já não sentem como dantes. Éramos um país de marinheiros, hoje nem de navegantes. Os primeiros porque verão o seu testemunho sempre adiado pelas circunstâncias, os outros porque as errâncias se viraram de novo para as Franças, as Espanhas, e nós, apesar de tudo, com tanto mar.

Mas como a ele voltar se não há ir? 

 * Publicado in DIÁRIO DO SUL - Coluna “Kota de Mulher” Outubro de 2005 by Luísa Baião


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

450 - CIGANOS, CRUZADAS, RENASCIMENTO, EXPERIMENTALISMO, ILUMINISMO E RSI ...........


Muito se tem falado ultimamente em ciganos e RSI, mas pouco se tem adiantado quer acerca de um termo quer do outro, quando afinal e curiosamente esta coisa do RSI remonta ao ano mil e à época das cruzadas, embora pouca gente lembre ou relacione tal. O que comummente é lembrado é o pedido de ajuda de El-Rei D. Afonso Henriques aos cruzados descendo a costa em direcção à Terra Santa, para o ajudarem a combater o infiel conquistando-lhe Lisboa, pois os mouros encontravam-se mesmo ali à mão de semear, ajuda que não negaram. Lisboa foi conquistada a 21 de Outubro de 1147, e tinha o reino quatro aninhos.

Esta foi a primeira cruzada da nossa história, mas não foi a primeira da Europa, cujos senhores feudais arrebanharam os seus exércitos privados e os servos da gleba, formando verdadeiros movimentos militares, hooligans de inspiração cristã partindo rumo à Terra Santa e a Jerusalém com o fito de a conquistar, naturalmente saquear, ocupar, escravizar e sugar, mantendo-a sob domínio cristão enquanto Deus na sua imensa omnisciência o permitisse.

As primeiras cruzadas foram chamadas de "invasões francas" porque eram verdadeiras invasões, e porque os cruzados provinham originalmente do Império Carolíngio e se autodenominavam francos (do reino Franco, quase a actual França), numa época em que a Palestina estava sob controlo do rico Sultanato de Rum, portanto um impenitente infiel. Nada nos deve em consciência admirar que a Ordem de São João de Jerusalém (Hospitalários) e dos Cavaleiros Templários tenham sido criadas durante as Cruzadas. Estas ordens e cruzadas foram inicialmente julgadas ligeira e acriticamente um movimento, uma guerra religiosa ou mesmo uma ideia política ou moral, e para as descrever os poderes instalados na Europa geralmente socorriam-se de expressões como "peregrinação" e "guerra santa" pois Cruzadas eram também peregrinação, forma de pagamento de promessas, forma de pedir a Deus alguma graça, alguma indulgência, e os sacrifícios a que obrigavam poderiam no extremo ser considerados uma penitência e trocados por favores celestiais.

No fundo tudo isto não passava de esfarrapadas desculpas para o saque generalizado e violência gratuita, mas Deus mandava e portanto Ele lá saberia, tendo-se chegado ao cúmulo dos seus participantes serem e se considerarem soldados de Cristo, sendo mesmo distinguidos pela cruz ostentada nas roupas.     
                                                                               

Verdade verdade é que as Cruzadas contribuíram muito para o comércio com o Oriente, e quem diz comércio diz intercâmbio, e quem diz intercâmbio diz arte e cultura, ciência, literatura, saberes, tradições, filosofias, sendo que nenhuma destas acções se processa unilateralmente, para haver interacção como sabem são precisos pelo menos dois, e porque em certas cousas um é pouco e três são demasiados, aconteceu que aqueles dois ou estes dois coiso e tal e tal e coiso, e coisaram, e para ser franco direi que alguns francos por lá ficaram, outros regressaram, mas francamente não podendo passar sem as suas Xerazades acabaram por trazê-las, a história não diz se pagaram franquia mas eram motivo de curiosidade em todas as feiras francas em que surgiam.

Ora ainda a propósito de cruzadas reza a história dessa época, caracterizada por fortíssimo misticismo, que é o mesmo que dizer uma infalível crença na comunicação entre o homem e a divindade, levando ao recolhimento e à vida contemplativa, a uma devoção exagerada e mercê da ignorância geral a forte tendência para acreditar no sobrenatural, factores que, aliados à crença corrente de que o fim dos tempos estaria próximo, conduziu por volta do ano mil a um intempestivo movimento popular, um acontecimento espontâneo que ficou conhecido como a Cruzada Popular, despoletada numa Europa medieval, miserável, prenhe de desigualdades e submissões, quase vivendo da escravatura, no mínimo no feudalismo, uma Europa faminta.

Essa cruzada dos Mendigos, iniciada antes da Primeira Cruzada oficial, contribuiu para aumentar imenso o volume das peregrinações de cristãos rumo a Jerusalém e que, mercê da sua génese classista e popular reuniu uma horda de guerreiros, havendo entre a turba mulheres, velhos e crianças à frente de quem se encontrava o monge Pedro, o Eremita, que a todos arrastava graças a pregações comoventes e promessas de infindas riquezas e recursos financeiros. Na longa viagem até à Palestina estes cruzados buscaram e violentaram dentro da Europa os ricos considerados infiéis , judeus, em especial os judeus mais ricos, os da Renânia, e inspirados p'lo tal Pedro o Eremita, liderando a trupe de maltrapilhos, matavam todos os judeus que se recusassem a abraçar a fé cristã, tendo assassinado ainda na Europa mais de cem mil judeus. O grupo prosseguiu atacando Worms, Judengasse, Colônia, Trier, Metz, Praga, Ratisbona, Oedenburg (atual Sopron), Belgrado, onde essa horda de cruzados pilhou a área rural e 150 deles morreram dessa vez num pequeno confronto com a população local. Contudo o sentimento anti-judeu espalhara-se entretanto pela França e Inglaterra e por todo o lado por onde idênticos bandos seguiram esse levantamento popular, autodesignados peregrinos por Cristo, após atravessaram em arrastão a Alemanha, a Hungria e a Bulgária, causando desordens e desacatos, acabaram em parte aniquilados pelos búlgaros.

 Ao chegarem à cidade bizantina de Constantinopla e apesar das péssimas condições dessa cruzada, a turba encontrava-se mal equipada e mal alimentada, não deixou contudo de a massacrar, pilhar e destruir, tendo saqueado a cidade a 1 de Agosto de 1096. Para afastar este "bando turbulento" de sua capital o imperador bizantino logrou obrigá-los a alojar-se fora de Constantinopla, perto da fronteira muçulmana, e incentivá-los a atacar os infiéis. Tal como esperava foi um desastre, pois a Cruzada dos Mendigos chegara muito enfraquecida à Ásia Menor e foi arrasada pelos turcos. Somente um reduzido grupo desses perigosos indigentes conseguiu juntar-se posteriormente às cruzadas dos cavaleiros, esclareço, dos senhores feudais. Essa turba foi o primeiro exemplo histórico registado envolvendo desempregados, hooligans, famintos, presidiários, excomungados, condenados, ladrões, sacristãos, facínoras, indivíduos anti-sociais, desintegrados, adictos, delinquentes, refugiados, emigrados, pobreza extrema, fome e todos os itens necessários a fazer da Europa o barril explosivo em que ela durante bastante tempo esteve transformada.

Ora é fácil concluir que toda aquela gente ambicionava as riquezas que o médio oriente lhe prodigalizaria, ou melhor, talvez nem se tivessem arrastado até lá caso na Europa na sua terra tivessem encontrado um mínimo que lhes tivesse permitido enfrentar as adversidades com alguma solidariedade e capacidade, aconteceu que não e ficaram na história como o primeiro arrastão, e que arrastão… Imaginem se por cá o Padre Melícias se pusesse a pregar e a mobilizar o pessoal contra as riquezas da igreja e da democracia... Ou ele ou o padre Mário, da Lixa... ***

Mas os séculos provaram contudo que ainda que caro esse embate que as cruzadas permitiram ou forçaram, esse encontro ainda que violento de duas civilizações, a europeia e a do islão, deu frutos. A longo tempo e a longo prazo constataram os europeus quão atrasados cultural e civilizacionalmente estavam em relação aos vencidos que pela força tinham subjugado. Tal qual acontecera com os Romanos em relação aos Gregos, viria a acontecer agora, os Europeus tomaram-se de brios e não quiseram cultural e cientificamente ficar atrás da civilização islâmica, que venceram mas com a qual muito aprenderam. Vai daí despoleta-se por todo o continente europeu a vergonha pelo atraso a par da vontade de desenterrar os clássicos que a igreja ao longo dos séculos mais enterrara que protegera. Aqui e ali timidamente primeiro e depois de modo generalizado assiste-se a um renascimento dos cânones clássicos greco-romanos e cá estamos onde vos queria, precisamente no Renascimento, cujo ideário renascentista, humanista e clássico o “homem vitruviano” do mestre Leonardo da Vinci tão bem sintetiza“.
     Renascimento e ou Renascença são referências ao tempo histórico europeu, nomeadamente entre fins do século XIII e o fim do século XVI, uma vez que em história se torna difícil balizar com exactidão determinados fenómenos sendo comum a sua coabitação, uns vão-se diluindo enquanto outros se vão afirmando emergindo, ou o contrário. Ora fora por esta época que tivera lugar a Quinta Cruzada, a última, 1217-1221, toda ela cheia de peripécias pré e post, pelo que como vemos as Cruzadas e as suas consequências e influências entraram pelo Renascimento como faca em manteiga, ou, para adequarmos o linguajar a esses tempos, como se escorregassem por toucinho barrando cuzinho de maometano.

O próprio método que nos níveis inferiores do ensino usamos para estudar a história não convida a relacionar nem interrelacionar acontecimentos nem influências mútuas, focamo-nos no chamado estudo factual, na cronologia do lugar ou do espaço, o chamado estudo diacrónico, das datas, dos acontecimentos, dos personagens, das batalhas, das vitórias, dos sucessos, quase reduzindo à inextência os percalços e descalabros, as derrotas e as perdas. O aparecimento da “Nova Historia” em 1970, sob impulsão de Jacques Le Goff e Pierre Nora, académicos franceses, (tal como acontecera em 1957-58 com a Nova Geografia)** trouxe uma nova visão da história,* comparada ou sincrónica, isto é em sincronia, em simultaneidade, comparando no mesmo momento o que se passava aqui e nos antípodas, sincronizado, é só meter a quinta e andar. Surgiram novos métodos e cuidadosos critérios para avaliar correlações e influências, novas exigências, permitindo a recolha de informação a partir de novas fontes e o avanço do conhecimento histórico, enfim, uma “Nova História” lançada na revista “Annales d'histoire économique et sociale” trazendo então a grande novidade de incorporação das Ciências Sociais na História. Os estudiosos contudo continuam terçando armas quanto às variações, por vezes consideráveis, nas datas dos grandes movimentos e tendências históricas, birrinhas de sábios, todavia nada com que a história se incomode ou a mude ...
 
Seja como for, os períodos marcados privilegiam as divisões históricas ao facilitar a sua demarcação e o seu estudo, diacrónico ou sincrónico, abrangendo as transformações e interinfluências em muitas áreas da vida humana cujas inter-relações acabam sendo estudadas profundamente. Ora só a história e nós ganhamos com isso. Outra divisão impossível de classificar com exactidão, até por não se ter processado simultaneamente em toda a Europa é a transição do feudalismo para o capitalismo, essa ruptura nas estruturas medievais, área por excelência onde ou em que o termo é sobretudo empregado para assinalar especialmente os efeitos nas artes, na filosofia e nas ciências, sim nas ciências, pois chegámos a outro entroncamento da nossa conversa e é tempo de derivar para o aproveitamento feito da ciência recuperada aos clássicos, em especial de Ptolomeu, o homem que os portugueses mais contrariaram, desmistificaram e desmentiram, mas desmentiram com factos e não com teorias metafisicas ou abstractas.

Foram os portugueses, mais que todo e qualquer outro povo, quem norteou as mudanças históricas em direcção a um ideal humanista e naturalista. Johannes Gutenberg é deste período, digo-o só para ajudar a que vos situeis no tempo cronológico. Portugal destacou-se pelo seu experimentalismo, experienciava as cousas, vivia-as, estimulava-as ou provocava-as com o intuito de conseguir um resultado. Aliás, sem essa iniciativa e experiência não teriam sido tão vastos os territórios descobertos e cartografados por e para Portugal. Foi grandemente valorizada no Renascimento a experiência, e os inventos de Leonardo da Vinci são prova disso mesmo, pois a experiência e a observação foram o método da arte de marear, método estendido a todas as artes. A contínua observação e comparação dos astros e de fenómenos naturais apuraram toda a ciência, dando origem aos diversos tratados e, curiosamente, a uma frase correndo nos meios intelectuais europeus, ou seja no mundo, exigindo que toda e qualquer coisa fosse provada à maneira portuguesa, isto é que se fizesse como faziam os portugueses, se provasse sem sombra de dúvida o que era afirmado.

Como a experiência era a madre das coisas, e foi essa experimentação que induziu ao aparecimento do método científico nas ciências, segundo Duarte Pacheco Pereira iam os navegadores testando as teorias criadas e anotando as variações e especificidades verificadas. Este período em que as trevas deram lugar à luz e a ignorância lugar ao saber despertou como iluminismo ou Século das Luzes, e procurou fazer valer o poder da razão, a fim de reformar a sociedade e o conhecimento escolástico herdado da tradição medieval. O iluminismo floresceu até cerca de 1790-1800. Não por acaso foi a época de Jean-Jacques Rousseau 1712-1778, o tal do Contrato Social, que, parecendo que não tem muito a ver com os ciganos e o RSI aqui abordados.

E chegamos ao Entroncamento sendo tempo de nos lembrarmos dos ciganos, pois em relação a eles haverá muito a dizer inda que eu vos diga somente duas cousas, a primeira é que se há gente pouco enganada ao longo da vida têm sido eles, há muitos anos voltados para a contemplação, coisa que os nossos filósofos, políticos e governantes nos prometem há séculos e da qual estamos cada vez mais longe. Nacionalismo, patriotismo, são para muitos de nós e em especial para os ciganos as tretas com que nos dão a volta ao miolo, daí eles serem apátridas, e nada disso me admira porque, uma pátria como a minha que me suga até ao tutano em benefício de bem poucos, pouco ou nada nos dando, e que pudendo sacudiria das costas não é pátria que se ame. Segunda asserção, a última aldrabice que nos está sendo vendida é a da robotização, pois ouvi de um cigano que não, não haverá mais fartura para todos, nem mais descanso ou mais felicidade para todos, ou mais tempo para a contemplação ou para viajar, haverá sim mais desemprego, mais fome e mais infelicidade para todos, e ninguém terá dinheiro para comprar um simples bilhete de autocarro quanto mais de avião, porém estará garantida muito mais riqueza para quem já seja rico. Quanto a eles ciganos, já contemplam e hão-de continuar comtemplando a nossa alienada sociedade, fugindo em especial do materialismo que nos subjuga, em troca duma liberdade que pagam cara mas que não se importam de pagar. Contudo digamos em sua defesa que nunca roubaram ou sequer mandaram abaixo um banco, para bom entendedor meia palavra bastará, estou convencido disso. 

          E pronto, chegámos ao fim e batemos com o nariz no RSI, que é, recordai a cruzada dos Mendigos à frente de quem se encontrava o monge Pedro, o Eremita, que a todos arrastava graças a pregações comoventes e promessas de infindas riquezas e recursos financeiros, tendo espalhado o terror por toda a Europa e feito milhares e milhares de vítimas mortais, em especial entre os ricos cuja riqueza e bem-estar os pobres e famintos cobiçavam. Pois bem meu artolas, falo directamente para ti que pagas o RSI com os teus impostos, o RSI, o Subsídio de Desemprego e tantos outros para que possas viver ou vegetar, produzir, pagar impostos, passear, gozar a vida, ter carrinho, e barco, e mota, e bicicleta e papagaio, mas ter sobretudo uma vida minimamente aceitável, minimamente segura, que valha minimamente ser vivida, numa sociedade minimamente civilizada, organizada e solidária. Uma sociedade assim não o seria sem a criação destes mecanismos sociais. Olha só quantos séculos passaram, quanta violência, quantas privações, quantos mortos, quanta falta de solidariedade, quanto martírio e quantos mártires, mas se me perguntares porque demorámos tanto tempo a saber a aprender isto responder-te-ei, porque nunca quisemos falar com ciganos, eles sabem isto tudo há bué da time, há milénios…  
   


terça-feira, 1 de agosto de 2017

449 - TRUMP E O ANO GEOFÍSICO INTERNACIONAL - O HOJE E A MEMÓRIA............


O título original deste texto era nem mais nem menos, digo sem tirar nem pôr, A GEOGRAFIA NOS ÚLTIMOS CINQUENTA ANOS e por mim escrito nos idos de 1977, mais concretamente para a saudosa Professora Elsa, no novel Liceu André Gouveia, onde na condição de aluno nocturno frequentei já nem sei o quê equivalente ao ano propedêutico ou ao sétimo ano liceal, nem isso agora interessa, interessa sim o quão ela me seduziu, ela Elsa e a sua Geografia, isso sim deveras importante.

Logo calhou hoje andar à rasca da anca por mor duma queda dada ontem e, ao rebuscar o baú em busca de velhas chapas de RX, não fosse dar-se o caso de as dever mostrar a algum especialista, pois numa outra vida tivera um problema de bacia mesmo ali onde me doía e dói, porém em vez das chapas dei com o tesourinho citado, escrito pela minha mão, e que me valeu um notão. Já então tinha a letra, a caligrafia que mantenho hoje, embora agora mais miudinha, mais inclinada, mais despachada, há que avançar em frente que atrás vem gente, como diria a minha amiga Paula.  

Passo então a apresentar-vos o trabalho mencionado, vem a propósito, não o apresento simplesmente para encher páginas mas a fim de julgarmos quão estúpido e dantesco foi o abandono dos acordos de Paris por Trump, além de eventualmente poder ser que alguém seja cooptado para a geografia como eu fui, embora isso não traga nenhuma vantagem especial neste país, como não traz ser engenheiro ou arquitecto, enfermeiro ou alfaiateiro. Trata-se de um país a brincar e é com esse espirito, e também para me gabar, tão novinho e coisinhas tão jeitosinhas que eu então já dava à luz, o que para vocês pode não importar mas me enche o ego e aviva a auto estima.

“ Ao propor-me fazer (devia ter escrito realizar) um trabalho sobre os progressos deste ramo das ciências nos últimos 50 anos parece-me lógico rever as suas conquistas anteriores, não só para ajudar à compreensão da situação no ponto de partida deste trabalho, como para dar uma ideia da cronologia, necessidades e porquês deste último arranque sobre o estudo do nosso mundo. Como é sabido desde os tempos mais remotos que o homem procura saber situar-se na esfera que o encerra, Ptolomeu, Aristóteles, Copérnico, D. Henrique e tantos outros foram dando ao mundo novas visões (e novas versões) cada vez mais exactas do mesmo. Se bem que nesses tempos o progresso fosse andando a passo de ganso, o mesmo não veio a acontecer nos séculos seguintes, mais concretamente nos Séc. XVIII e XIX, onde a Geografia, então de feição clássica, não descansou enquanto não catalogou dentro da sua concepção de ver as coisas (da sua concepção clássica) tudo o que lhe foi possível e poderemos mesmo dizer (afirmar) que os estudos sobre os quais hoje (em 1977) nos debruçamos não teriam razão de ser sem o apoio de todo esse enorme trabalho anterior, nem existiriam mesmo.

Esse mérito coube em grande parte a homens que souberam dar às suas vidas um sentido positivo e real, desde o Cap. Cook, que com as suas viagens deixou inscritas em cartas cartográficas grandes regiões do globo, Charles Darwin homem de rara visão e grande espirito de observação que nos deixou um marco de extrema importância para a comparação dos seres vivos e sua evolução no meio ambiente, e tantos outros que posteriormente desbravaram os continentes recém-descobertos. Os Séculos XVIII e XIX foram pois aqueles em que tudo foi dado a ver, desde os continentes africano, americano e os próprios polos que na época representavam para o homem o espicaçar da sua curiosidade (este sua está a mais), foram vencidos.  Mas o gigante não descansou depois de todas estas lutas, outros sonhos breve começaram a povoar a mente do homem, e é aqui neste passo da história que com 2 homens que (e 2 dispensáveis ques) tivemos oportunidade de conhecer pelos nossos estudos recentes que (outro que) surgiria o despertar mágico da Geografia, Humboldt e Ritter. * 

Como retrospectiva não devemos esquecer o real (a realidade) que rodeava a sociedade do tempo, nada pode ser desligado do seu evoluir, a revolução Industrial do Séc. XVIII veio trazer e resolver problemas do homem, ajudou-o e encheu-o de interrogações, deu-lhes umas vezes os meios e outras os fins, e quando Humboldt e Ritter surgiram os transportes estavam já desenvolvidos, o intercâmbio entre os continentes era já vulgar, corrente, e foi este relativo progresso que deu a Humboldt a oportunidade de conhecer e pensar no que estava por fazer. O que saltava à vista estava catalogado, foi o período da Geografia clássica, com Humboldt outra época viria a nascer, a moderna, e ele como Ritter deram-lhe todo o seu cunho pessoal (o seu era desnecessário), pormenorizaram, interrelacionaram as ciências naturais, históricas e filosóficas com a Geografia e ajudaram à compreensão das relações entre os homens e o ambiente, encheram os espaços de fenómenos (que explicaram), botânicos, climáticos, geológicos, estruturais, e suas influências no homem, e pelo homem, geraram polémica e contestação, e abriram o caminho à curiosidade de outros homens que por sua vez vieram também a fazer “escola” e a criar critérios. (métodos).


Da discussão nasce a luz, e mais tarde Ratzel,** criador da antropogeografia, vem dar nova achega à questão ao considerar o comportamento humano em função da influência do meio, quando até aí, e talvez devido ao facto de ter caminhado de vitória em vitória o homem era visto (considerado) como o dominador do meio em que vivia. No entanto depois de todas estas descobertas a terra não parou de girar, as cidades cresceram, a densidade demográfica aumentou, os espaços foram sendo preenchidos e a geografia começou novamente a não saber como os explicar na mente dos homens, nessa vitrina tão vasta vimos surgir novo anúncio, “novas concepções precisam-se” e é mais ou menos a partir desta ideia, desta nova necessidade de encarar as coisas que surge a “Nova Geografia”.

As concentrações industriais, as migrações populacionais, os porquês das grandes cidades precisam de novas explicações, a inter-relação entre a sociologia, história, a matemática e a geografia torna-se necessária, e a geografia torna-se tão precisa (necessária) às outras ciências como elas à geografia para a explicação desta nova organização espacial, que não é só obra das influências entre o homem e o meio que o rodeia. O pormenor terá que ser colocado de parte para ser procurada a exactidão (a síntese) de realidades sociais mais vastas. A técnica dá-nos novos meios, o computador, a recolha e tratamento de dados, a estatística, a matemática e a lógica são cada vez mais necessárias e utilizadas, há maior necessidade de compreender o espaço para o dominar. A geografia deixa de ser qualitativa, classificativa, para se tornar quantitativa, há que responder a novas exigências, que adaptar-se a novas situações, montes de perguntas, montes de respostas, montanhas de dados, há que saber trabalhar com eles, traduzir, trabalhar, explicar, prever, tudo a um ritmo a que a geografia não estava habituada (tal como a nossa AR), falhará por vezes ? Talvez, mas os erros vão sendo aperfeiçoados, a matemática surge onde é possível e necessário aplicá-la, densidades demográficas, natalidade, mortalidade, minimização de custos, maximização dos proveitos, matemática e economia, geografia, cada vez mais campos estendem as mãos à geografia numa ânsia desmesurada de compreensão e explicação, os urbanistas, os engenheiros, os economistas, os políticos, os sociólogos, socorrem-se dela para tentar dar-nos a todos um projecto de mundo mais equilibrado, onde viver custe menos e saiba melhor. (parece que não conseguiram).

Surgem nesta sequência teorias para a racionalização dos espaços, os modelos, novos métodos para maior e mais racional explicação e aproveitamento dos espaços sobretudo económicos e sociais. Na origem de todos estes estudos e conhecimentos a “terra em que vivemos” foi e será sempre a nossa fonte de inspiração, quanto mais a descobrimos maior ela se torna para nós, um problema desvendado deixa sempre na sua esteira mais ainda que nem imaginávamos, conscientes deste facto, cientistas de todo o mundo chegaram à conclusão que só de mãos dadas era possível fazer frente a tão grande manancial de incógnitas, e foi estabelecido serem os anos de 1957 e 1958 dedicados ao estudo em uníssono de fenómenos de todo o tipo no nosso globo, foi designado por “Ano Geofísico Internacional”, AGI, e teve resultados tão profícuos que o espírito que presidiu à sua criação se manteve até aos nossos dias, tendo sido do seu trabalho que fenómenos hoje conhecidos foram desvendados. Milhares de “garrafas” especiais foram deitadas ao mar, foram desvendadas as temperaturas, as correntes marítimas e suas influências em climas nos continentes, um conjunto de exploradores cruzou a Antárctida de um ao outro lado investigando a calote polar, as rochas e as águas costeiras da Antárctida, as condições meteorológicas em relação com o clima do resto do mundo, o jet stream, os céus, auroras boreais etc. etc. etc.

Foram (foi) ainda durante este AGI que os EUA e a URSS lançaram os seus primeiros satélites artificiais, dando o estudo e o conhecimento que hoje temos da camada atmosférica superior, da gravitação da terra, do magnetismo, das radiações do sol e raios cósmicos, o Cinturão de Van Allen, as linhas isobáricas, isoiéticas, isóbáricas, isotérmicas, tudo isto são conhecimentos adquiridos através destes estudos recentes que não pararão jamais e fruto desses satélites pioneiros, outros se lhes seguiram e seguirão, e quando tudo na terra for explicado pela geografia, outros mundos estarão já ao nosso alcance e à nossa espera, a ciência não pára, e a geografia também não certamente.

Évora Junho de 1977

Humberto Ventura Palma Baião “




segunda-feira, 31 de julho de 2017

448 - SERVIÇO DE MESA OU A MALEÁVEL E DÚCTIL TEMPERA NACIONAL ................................


Fechou para férias o meu café, meu é como quem diz, costumo lá ir mas não tenho lá parte, parece a mesma coisa mas não é, é até muito diferente mas bamos ao que interessa. Fechou sem aviso, embora se tivesse avisado todos ficássemos na mesma, isto é, com o aviso nas mãos e forçados a mudar de café, a diferença é ou teria sido unicamente o facto de, ao encontrarmo-nos noutros cafés não termos dito do nosso cobras e lagartos como dissemos, mas bamos ao que interessa, e o que interessa é que depois de uma semana azarada, sobressaltada ou agitada, chegou finalmente domingo, ontem foi domingo, dia de vagar e paciência, pelo que fui ver até onde as coisas davam, até onde esticava a corda.

Já na terça ou quarta-feira virara as costas ao meu amigo Ferreira, amigo é modo de dizer, conheço-o há cerca de quarenta anos, até esta quarta nada tivera de bom a abonar em seu favor, mas a partir desse dia tenho muito em desfavor desse meu amigo, sempre o julgara mais esperto. Ele tomara de trespasse há dias o Café da Lena, relativamente próximo da minha zona habitual pelo que, depois do pão comprado na padaria do Carlos, o proprietário o Mira fora meu aluno e sempre gostara dele e do seu pão alentejano e muito mais agora, a Ana é toda simpática, solícita, e corta-me o pão fatiado como eu gosto por isso Deus lhe dê saúde muitos anos. Depois do pão pensei de mim para mim dar um pulinho ao Café da Lena que como devem lembrar-se agora é do Ferreira, meu amigo, para o ajudar a arrancar, a pagar a renda, a governar-se, a pagar os ordenados a toda aquela gente.


Lá fui, tem uma esplanada sossegada debaixo dos baixos do edifício fazendo uma espécie de arcada, com um dos lados tipo varanda, sossegada demais para uns mas a meu gosto, pelo que me sentei e esperei, eram dez da manhã, uma boa hora de um dia fresco com um sol agradável, puxei do livro e do bloco de apontamentos que trago sempre na paneleirinha, li, escrevi umas notas, mas não tomei o desejado café e já o dia ia na onze horas. Belisquei-me não fosse dar-se o caso de ter ficado invisível, quando vejo o meu amigo Ferreira levantando louça suja duma mesa próxima, chamei-o, olá Ferreira eu só queria, está bem mas ele népia, orelhas de mercador, ouvidos de mouco, tendo sido então que reparei nas calças novas, bem vincadas, polo grená de marca, impecável, bem, já era dono, proprietário não liga a pelintras, vi logo que não me iria servir pois há agora uma nova moda que grassa por aí como fogo em pasto seco, pelo que não disse nada, levantei-me e rumei a um sitio que eu cá sei, ali bem perto, com esplanada, um café velho de anos ou décadas, num gaveto de passeios largos, onde sei ao certo não terem igualmente serviço de mesa na esplanada o que me levou a entrar direitinho ao balcão e, sff uma bica cheia, uma água e uma fatia desse semifrio que está aí a fazer-me crescer água na boca podendo ser, obrigado, estarei naquela mesa ali ao fundo junto à montra.  

Deviam ser dez e tal ou onze e picos e junto à montra fiquei vendo os navios passando, e lendo o jornal até ao meio dia e meia, tal e qual. Nesse dia tomei de novo a bica em casa ao chegar, tenho uma Delta Q que é um mimo e cápsulas até que venha a mulher do Fava-Rica. No sábado comprei o Expresso e fui sentar-me novamente na esplanada do meu amigo Ferreira, passada meia hora aproveitando a passagem de uma lambisgóia levantando a loiça e limpando as mesas pedi uma bica e não pedi mais nada pois nem tive tempo de acabar, que não, que não servem às mesas, se quisesse fosse ao balcão buscá-la, à bica claro. Calei-me, não vale a pena o diálogo com gente inferior, é descer ao seu nível e nada resolver pois nem poder têm para isso, cumprem ordens, com mais ou menos simpatia limitam-se a cumprir ordens, zelam pelo seu bem-estar e que não abusemos dos seus direitos.

Respect. No problema.

Ergui-me e volvi novamente ao tal certo sitio do qual já vos falara, entrei, cumprimentei, dirigi-me à mesma mesa e sentei-me, dez e picos onze e tal, li o jornal, passei incógnito, fui à casa de banho dar uma mijinha e confesso-vos, de irritado que estava tive vontade de lhes mijar aquilo tudo para me vingar mas, era uma pena, tudo tão limpinho, tudo tão asseado, e eu de calças branquinhas, descarreguei-lhes o autoclismo três vezes e fui-me à vida tendo voltado a estalar a língua contra o palato depois de emborcado o cafezinho e passada a mão pela Delta Q, ainda quente, como quem passa a mão pelo pelo de um rafeirinho, do Benji ou da Mimi, da Cuca, da Heidi, do Francisco ou da Mia para não discriminar nenhum. Aproveitei e esvaziei a maquineta das capsulas usadas que chegavam até acima e ameaçavam emperrar o mecanismo, fui fazer xixi de novo, lavar as mãos, pôr a mesa e almoçar uns lombinhos de pescada que a Luisinha marinara primeiro e de seguida maravilhara polvilhando-os com orégãos, mas só depois de retirados do forno naturalmente.


Hoje, digo ontem domingo, corri quatro cafés nas redondezas antes de acertar no Café da Tapada, com serviço de mesa e vos recomendo. Devo confessar-vos, a minha segunda opção fora o café do senhor Paulo, uma jóia de pessoa, tanto ele como a D. Antónia, mas para meu azar tinham aproveitado o fecho do meu café habitual para fecharem e entrarem em obras, o que nos atirou para uma outra órbita, nas redondezas mas mais alargada, assim como quem muda do Circulo Polar para o Trópico de Capricórnio, ou de Câncer, numa manobra certamente concertada e que deixou a urbanização sem café, a não ser o da Padaria Maravilhas cujas padeiras são super simpatiquíssimas mas o café duma qualidade inferior, reles, tão reles que me provoca azia sempre que o bebo.

Pois neste burgo onde o turismo parece ser a única coisa que mexe os cafés esperam que os sirvamos, não abrem nem existem para nos servir mas nós a eles, e nisso não diferem do país, todo ele virado ao contrário, todo ele um erro colossal qualquer que seja o prisma pelo qual o observemos. E o tuga entra feliz, faz de criado e sai contente sem se aperceber estar contribuindo para o elevado desemprego que reina entre nós, ou para a subida de impostos que sustentem, contentem e aguentem o exército de inactivos que com carinho inusitado o país cria e mantém há anos comendo à mão. Se não ganham para um empregado que sirva às mesas aumentem os preços ou a boa vontade. Mexam-se, trabalhem.


Há anos que deixámos de ver nas bombas de gasolina aqueles homenzinhos indiferenciados que nos atestavam o carro, viam a pressão dos pneus, a água, o óleo etc., desapareceram, as bombas já nos puseram a trabalhar para elas, para elas e para pagar os subsídios de desemprego e os de RSI a esses homens, a esses e aos das portagens, agora é uma máquina que me exige a portagem, e nos híperes onde somos nós quem agora faz de marçanos, portanto podem imaginar a quantidade de gatos pingados que ficaram sem emprego e andam por aí rebentando caixas multibanco para ver se comem qualquer coisita, havendo jovens desempregados há vinte anos ou mais, e que o vão estar outros vinte, vivendo à custa do RSI ou fazendo pequenos biscates e furtos que não matam mas moem, sonhando talvez ser bombeiros, e heróis, e não o podendo ser deitando-se a deitar fogo às matas que é para que tu e eu saibamos como é e o que dói.

E depois vem o PPC aos jornais dizer que não, que o senhor deputado e os outros dois autarcas não quebraram a ética pois foram em passeio pessoalíssimo e não em serviço, sendo contudo bom que se verifique se terão sido ou não quebradas outras incompatibilidades, desconhecendo na sua larvar e épica ignorância ter sido a ética precisamente a primeira coisa que eles quebraram ao ir à China ou lá ao caralho do lugar onde foram.

 A imprensa demorou mais de um século a ganhar a credibilidade que em tempos lhe foi reconhecida mas agora, com a ajuda de governos e spin doctors todos os dias nos mentem e aldrabam com quantos dentes têm na boca, mais valendo a gente virar-se para o “Diabo” se quer saber alguma verdade verdadeira. Imaginem, o “Diabo” o tal da Vera Lagoa, quem diria ou adivinharia a cambalhota que os outros deram para estarem fazendo dele um jornal de referência.

Somos um povo de uma ignorância tosca e costumes rudes, grosseiro, inculto, rústico, muitos diplomados, outros doutores, muito bonitas estatísticas todavia no geral sabe-se menos hoje que no tempo de Salazar. Não pensamos, não meditamos, não questionamos, não nos interrogamos, não agimos nem reagimos, umas anémonas perfeitas, mas queremos ir longe, talvez até ali à esquina, deve ser isso, ver se há um café onde possamos tomar qualquer coisa, pois que tomemos ao menos uma atitude. 


segunda-feira, 24 de julho de 2017

447 - BEM PREGA FREI TOMAZ * .............................



Bem prega frei Tomaz, faz o que ele diz, não faças como ele faz.

Não tenham a menor duvida, o segredo da coisa está no lançamento, um bom lançamento é o alfa e o ómega, o resto são peanuts, depois de lançada a coisa aguenta-se, a coisa ou o coiso por que o que há a vencer é a inércia inicial, como Newton bem sabia. Há dois mil e duzentos e tal anos já Arquimedes de Siracusa, mais modesto, afirmara que sendo-lhe dada uma alavanca e um ponto de apoio mudaria o mundo, esclareço aqui ser a alavanca uma das seis máquinas simples da mecânica, máquinas a partir das quais derivam todas as outras por mui complexas que sejam. Ressalvo que talvez Arquimedes tenha dito deslocaria, e não mudaria, pretendo evitar confusões e eventualmente más traduções já que alavanca, fulcro e força eram tudo o necessário para deslocar ou mover o mundo, cousa bem diferente da ideia do meu amigo Tomaz que só quer mudar o mundo ou mudar-nos a nós a seu jeito e desejo, mas por nossa conta e ónus.

Há mais de setenta anos Wernher von Braun sabia tudo depender do impulso inicial, desde que houvesse um bom impulso inicial qualquer coisa subiria e se manteria lá em cima, o impulso era tudo, era tanto que ainda hoje o empuxo ou força dos motores dos jactos ou dos foguetões, dos Atlas, dos Titans, dos Saturnos, dos Arianes, dos Soyus e tutti quanti são medidos em impulsos, libras, já os dos automóveis, máquinas mais modestas, são ainda medidos em cavalos por deferência para com os ditos e a engenharia das máquinas a vapor e dos cavalos vapor, os designados Horse Power.

A cantilena de hoje vem a propósito de um choque tido e havido com o meu amigo Tomaz, chamemo-lo assim, tendo eu dito duvidar estar ele em órbita sem o impulso inicial que levou. Ele não é parvo de todo, e é inteligente, o que não lhe tolerei foi vir armado em anjinho pregar resignação aos peixinhos, coisa que nem Stº António se atrevera a fazer. O que sucedeu foi que numa qualquer publicação na Net desenvolveu o amigo Tomaz uma teoria do sociólogo Richard Sennett que a Terramar publicara em 2001 “A Corrosão do Carácter” um influente ensaio sobre as consequências pessoais do trabalho em cada individuo e que segundo parece permanece perfeitamente actual, segundo o qual “já ninguém espera trabalhar na mesma organização a vida inteira, embora a empresa para a qual se trabalha seja um grupo social importante ao qual pertencemos e que define parte da nossa identidade”.

Esta teoria, que nem me dei ao trabalho de ver até que ponto plagiou, o Tomaz escreve bem e nem precisaria disso, nem foi isso que esteve em causa, em causa esteve o facto de vir consolar-nos, de nos induzir à resignação quando o país está como está graças em grande parte ao partido em que debutou, ao partido que o impulsionou, ao partido que não fez pelo país o que devia ter sido feito, e já agora deixem-me perguntar que partido fez alguma coisa de jeito nos últimos quarenta anos ? Se assim tivesse sido certamente não estaríamos como estamos e pior havemos de estar.

Pois este meu amigo, que como disse é inteligente e tem um curriculum extraordinário, só não tem inteligência para saber quando deve ficar calado ou que assuntos escolher, ele que orbita onde orbita e tudo deve ao impulso inicial que, como de inicio vimos mete lá em cima qualquer merda que posteriormente e com facilidade por lá se aguentará. Ora sucede ter o dito cujo Tomaz ter sido nem mais nem menos que bafejado pela oligarquia que aqui na terra põe e dispõe de lançadores, lançamentos, órbitas e tudo quanto lhes convenha, num impulso que me envergonharia mas que ele subtilmente escamoteia no vero e lustroso curriculum que publicamente apresenta, será caso para dizer que com a verdade nos engana.

No fundo o que nos opõe e eu lamento é que iguais oportunidades não sejam dadas a todos, que se vêem obrigados a emigrar à falta de amigos impulsionadores… Fica mal a quem foi colocado lá em cima pela mão dos seus perguntar aos outros por que não sobem, ou pior, consolá-los por ficarem cá em baixo, e que se fodam, que se resignem que isto da democracia não é para todos mas somente para alguns eleitos. Desgraçadamente até no exemplo que foi buscar para ilustrar o seu escrito foi infeliz, sacar da PT como exemplo é coisa que nem lembraria ao diabo, a PT enquanto empresa pública foi um modelo de péssima gestão a tal ponto que meteu 3700 colaboradores, funcionários ou trabalhadores em casa sem fazerem nada e a pagar-lhes, aliás fomos nós quem lhes pagou e paga ao pagar as comunicações mais caras da Europa... esquecendo ter sido José Sócrates enquanto PM e A. Costa enquanto seu Ministro da Justiça ou da Administração Interna quem fez a cama ao engenheiro Belmiro de Azevedo e à sua OPA, dando desonestamente início ao estrondoso rebentamento da PT ...  Agora é aguentar, é pregar resignação, é consolar os trabalhadores de quem fizeram gato-sapato, é obrigar a Altice a adoptar os hábitos estatais de gestão, é espremer todos quantos ainda cá estão e não debandaram deste paraíso, interrogando-me eu se isto é que é um verdadeiro democrata, dividindo a sua vasta sabedoria com o povinho mas esquecendo-se que é por estas e por outras tais que em Portugal as empresas morrem ou nem chegam a nascer e do Alentejo até fogem...

Para se pregar moral tem que se ter autoridade (moral) para o fazer... Se o meu amigo Tomaz não viu essa relação lamento, quanto ao texto, certamente vero e oportuno, nada tenho a opor, aliás o texto encontra-se noutras plataformas, sérias, onde Richard Sennett e “A Corrosão do Carácter” são abordados porventura com menos copy cola que aqui e muito mais meditação e avaliação crítica quanto ao cerne da questão envolvida... Não basta atamancar qualquer opinião para a tornar valiosa, sobretudo mal fundamentada como foi o caso, ao abordar o caso nestas páginas limito-me a expor outra opinião, uma outra perspectiva, e não a apresentar um mero juízo de valor ou preconceito, para que os leitores ajuízem da ética tortuosa e dos passos dados por quem nos prega sermões. Falar é fácil dar conselhos é fácil, o país está pejado de sábios e de conselheiros porém não temos nada, quarenta anos depois de Abril não temos nada, temos mais emigração, porém mais qualificada, e mais desemprego, temos isso sim mais oportunidades para boys e amigalhaços, em contrapartida temos mais saídas fechadas para todos, temos menos oportunidades, menos riqueza. É isto que temos depois de tanto sábio, tanto democrata e tanta democracia.

Esta minha página, este blogue está bem reconhecível e acessível. Não costumo atirar as pedras e esconder a mão, nem tentar parecer melhor ou mais limpo do que sou, ao contrário de muito boa gente não tenho necessidade disso. O curriculum apresentado pelo meu amigo Tomaz devia citar as ajudas e empurrões que a oligarquia socialista de Évora lhe concedeu, a ele, mas que não concede a todos, quero dizer o PS não criou um país nem uma democracia onde todos tenham iguais oportunidades, aliás é um partido à deriva e que em quarenta anos não encontrou a sua identidade nem o seu lugar nem os seus eleitores. Prova disso foi ter perdido vergonhosamente as eleições depois de quatro anos de asneirada grossa da direita (a quem continua a dever o sucesso actual) e ter-se agarrado à bóia de salvação que foi para ele o BE e o PCP, partidos que à primeira oportunidade lhe farão o que foi feito ao ingénuo Alexander Kerensky, um menchevique que aliás não merecia outra coisa, como A. Costa um político apagado, untuoso e xico-esperto merece e com quem jamais iremos longe ou acharemos a salvação.

Resumindo, ter padrinhos e um bom emprego, e estribado nisso vir pregar aos peixinhos é para mim coisa que só concebo aos santos ou a gente sem vergonha na cara.


* NOTA: Se não coloco aqui o link referente ao assunto abordado é tão só por não desejar fazer do assunto uma questão pessoal, a luta politica ou a exegética é uma coisa, a polemologia é de âmbito pessoal, completamente diferente e por onde não desejo seguir. Entretei-vos com “A Corrosão do Carácter” - Richard Sennett  - Terramar – 2001. O meu amigo Tomaz fez parte das estruturas locais do PS/Évora. A partir de 2000 desempenhou, por duas vezes, funções públicas. Primeiro, entre 1996 e 2001, nos gabinetes do Secretário de Estado da Juventude, do Primeiro-ministro e, finalmente, do Ministro da Presidência e das Finanças, do qual foi chefe de gabinete. Entre 2006 e 2009, foi coordenador adjunto do Plano Tecnológico. É membro da direcção do Centro Nacional de Cultura e co-autor do livro “Terror ao Pequeno-Almoço – A Gestão Que Preferia Não Conhecer”.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

446 - A INTENÇÃO É QUE CONTA ............................


Aquilo foi tudo um mal-entendido, cá para mim não passou de boas intenções, a gente às vezes quer mas nem sempre consegue é o que é, ou o que foi, é mais um daqueles casos em que acabamos por admitir, e dizer, o que conta é a intenção, já que por motivos que nos escapam ou são alheios à nossa vontade não se conseguiu concretizar o que seria certamente uma mera intenção, se boa se má não vem agora ao caso, ao caso vem não ter passado disso mesmo, duma intenção, não formalizada, a que não se conseguiu dar forma, não efectivada, materializada, que não se realizou, inconseguida como diria a outra….

Naturalmente ficou aborrecido com isto tudo o Zé António, já o conheço bem, bem e há muitos anos, imagino quanto o terá abalado o facto de não ter tido êxito, ele é muito dado às coisas, quero dizer leva tudo a peito, quando se mete nalguma é de corpo e alma, entrega-se ao que estiver a fazer e se o impedem atira-se aos arames, afina, como diz a Vicência do Herlander.

Ela é perspicaz, não lhe fazem o ninho atrás da orelha com facilidade, já dera por haver ali atrito, uma coisa subtil mas que todavia captara. Nem sempre é fácil captar as subtilezas de cada um, sobretudo se bem camufladas ou disfarçadas, porém não lhe escapara o ranger de dentes da Eunice, aquilo era tensão acumulada, aquele ranger escondia muita objecção ou contrariedade, fora essa a primeira vez, a partir daí afinara o olho, abrira o olho e muitas outras situações observara que ninguém diria ou sequer admitiria, mas não ela, a ela não a enganavam às boas que tinha o olho aberto como diriam os ciganos no mercado do rossio;

- Abra o olho ó freguesa abra o olho, dois pelo preço de três é aproveitar ó freguesa abra o olho !

Apanhar o momento de tensão, de atrito, do choque, por vezes coisa de segundos é realmente uma façanha de que a Vicência se gaba, não sabemos até que ponto terá ela razão claro mas admitindo que a tenha menos claro e mui mais difícil será conhecer o motivo, o detonador pior ou melhor dá-se por ele, ouve-se-lhe o estalinho, mas o que deu origem àquela guerra surda travada e escondida aos olhos de todos e que tantas subtilezas esconde ? Esse é o busílis, ou é aí que está o busílis.

O tempo veio a permitir ver ou antever alguns, alguns dos busílis, alguns motivos, como foi o caso dos passarinhos, sim dos passarinhos, não que os comessem que cá por mim tudo que seja mais pequeno que codornizes nem pensar e até essas já são pequenas demais, dando mais trabalho que o que tenham para comer mas aqui trata-se de passarinhos, não passarinhas, passarinhos mesmo, alimentar os passarinhos.

Ao longo da vida o Zé António alimentara várias pancadas ou várias taras, imagino o que a Eunice lhe terá aturado nestes anos todos, mas enquanto a coisa ficava entre os dois lá iam resolvendo as questões, isto imagino eu que sei perfeitamente só se descontrolarem as coisas quando transbordam, quando nem uma gota mais aguentam, deve ter sido o caso daquele ranger de dentes, por algum motivo uma gota não coube, imagino a explosão se estivessem só os dois, sozinhos, assim ela rangeu os dentes e calou-se, acumulou, como fazem as baterias, imaginem se lhe salta a tampa quando estiver com a carga toda, nem quero estar por perto.

Mas voltando à vaca fria, ou aos passarinhos, o problema radicava no facto de ter dado ao Zé António há algum tempo, a pancada para atirar da janela da cozinha à rua as fatias de pão que sobravam em cada dia. Não que ficassem longas horas desfeando a rua ou os passeios, ou que tivessem oportunidade de criar bolor, nada disso, a humidade da noite amolecia-as e na manhã seguinte bandos de pardais davam conta delas em pouquíssimo tempo. Bicada aqui bicada ali em breve somente sobravam as côdeas e até essas acabavam desaparecendo, era uma alegria para a passarada que excitada com a fartura e chilreando assinalava e alegrava a matina, o problema era o entretanto, ou os entretantos.

É que nesse entretanto, isto é desde c'as fatias caíam no chão, até que passadas umas horas de escuridão a pardalada as debicasse e comesse, alguma da vizinhança justamente revoltada com as toneladas de plásticos e outros resíduos flutuando nos oceanos e ameaçando a natureza e as espécies, quase deu azo a um abaixo-assinado e a uma mobilização de força contra o energúmeno que conspurcava os passeios da avenida, incapaz devido à incultura geral vigente de destrinçar entre resíduos orgânicos e inorgânicos, entre os que rápido se degradam naturalmente na natureza e os não biodegradáveis que nem passados quinhentos ou mil anos se degradam, desfazem, decompõem, a ponto do bom do Zé António ter sentido fundados receios de sair à rua, tendo sido obrigado a mudar de tácticas, passando a esfarelar ou a partir em bocadinhos pequenos e mais facilmente comidos e até levados, carregados pelos passarinhos, táctica que contudo a Eunice não aprovou continuando a sarrazinar-lhe a cabeça por tal motivo.

Com o tempo tudo se sabe, pior ou melhor tudo vem a saber-se e o motivo do atrito entre aqueles dois não era somente esse, acontece que a santa Eunice não suportava muita coisa que ele tinha que lhe aguentar, como o ouvir música alta, qualquer musica, ou que ele perdesse muito tempo no PC, ou tão pouco suportava ela ouvir o matraquear dos dedos dele no teclado sendo batido, digo digitado, a ponto do bom do Zé António ter sido “obrigado” a adquirir um caríssimo teclado, todavia silencioso. Só porque se o desgraçado estava ao PC ou se teclava seria por haver ali gato, ou namorico e a Eunice não estava para isso, fervia de ciúmes, inda por cima fervia em pouca água nem sendo necessária grande chama para atingir o ponto de fervura, diziam as más-línguas.

Fosse como fosse parece que as coisas foram enchendo de parte a parte, terá sido uma gota só a entornar, a extravasar, diz-se que o plácido Zé António um dia não se conteve tendo jogado as mãos ao pescoço da Eunice animado de uma vera vontade de pôr fim a todo aquele tormento e de a esganar. Não quis a providência que tal acontecesse naquele dia e a coisa tá agora mais apaziguada, deixando o Zé António os sapatos por arrumar e onde calha, a roupa suja largada onde calha e por apanhar, espalhada na casa de banho ou chutada para o corredor, os livros, jornais e revistas em cima de qualquer coisa, sem que ouça uma crítica e numa rebaldaria nunca antes vista naquela casa.

Uma conceituada terapeuta aconselhou e deu descanso à família afirmando estar a Eunice completamente recuperada das dores e mazelas do pescoço dentro de meses e pronta para outra, vem aí o verão, irão os dois parta a praia como de costume, ela não lhe poupará um ralhete a cada curva, a cada sinal, a cada ultrapassagem, a cada cem metros ou a cada quilómetro, ele jurou não lhe dar ouvidos nem que ela grite, dá gosto ver uma família ultrapassar os problemas e cooperar, reconciliar-se, a felicidade é que conta, o Zé António não conseguiu mas o que importa é a intenção, o que conta é a intenção e não faltarão certamente outras oportunidades…