quarta-feira, 26 de março de 2014

182 - STRESSADOS DE GUERRA * ..........................


Afadigam-se há 25 anos (hoje serão 40, 42 anos) * os antigos combatentes das guerras coloniais para sensibilizar o estado quanto ao reconhecimento das suas deficiências psíquicas adquiridas em situação de grande stress, exigindo serem equiparados aos mutilados, seus irmãos de sangue. Se persistirem aposto que ganham um monumento igual aos dos combatentes da I Grande Guerra.

A pátria é madrasta, aliás todas as pátrias o foram sempre, a juventude é, sempre foi, carne para canhão. Aproveitem os jovens agora os quatro meses de SMO (Serviço Militar Obrigatório) ou a não obrigatoriedade de cumprimento desse mesmo SMO, porque se estala alguma guerra rapidamente serão recrutados aos dezasseis anos para cumprir 4, 6 ou 8 anos de serviço, o que aliás acontece em muitas pátrias nos dias de hoje, quantas vezes lugares onde nem a objecção de consciência é conhecida quanto mais consentida.

É difícil provar o stress traumático pós guerra. Falta de provas, dificuldade na abertura e consulta de arquivos, indisponibilidade das chefias militares para remexer em assuntos que nem ao diabo interessa lembrar e que mais não são que publicidade negativa para o negócio. Negócio tantas vezes de inconscientes, inconscientes que nos submetem a guerras injustas, inconscientes os que nelas participam dando o corpo ao manifesto, ou já viram Napoleões recensearem homens maduros ?  Claro que não ! É muito mais fácil comandar adolescentes crédulos, no vigor da força e da inconsciência !

Mas francamente digam-me lá se não é de arrasar os nervos caminhar horas sem fazer barulho, tirar os relógios para que o reflexo do sol neles não nos denuncie, ou não fumar de noite pela mesma razão, sempre temendo pisar uma mina, levar um tiro vindo não se sabe de onde ? Digam lá se não nos marca ver um camarada de armas desfazer-se à nossa frente, ou morrer nos nossos braços pedindo-nos que não esqueçamos dizer à mãe quanto a amava. Homens feitos que pensam que o são e morrem chamando a mãe, chorando os filhos e as esposas…

Digam-me lá se não confunde a mente de qualquer um distinguir entre cubatas boas e más. Boas as feitas por nós, no terreno por nós dominado e para onde à força deslocamos as populações. As más, as más serão aquelas a que pegamos fogo, tenham gente ou não, que tiros e granadas fazem ir pelos ares e que, se à noite, são bonitas de se ver, soltam chispas que lembram fogo de artificio ! Digam lá se não aliena passar os dias bebendo água fétida dos charcos, a que se adiciona comprimidos purificadores, água que nem chegamos a beber por os tiros estalarem repentinamente sem que saibamos de onde partem. Digam lá se não aliena passarmos o dia rastejando no capim, morrendo e matando sem ver caras nem corações, mas ouvindo os impropérios que nos são dirigidos e respondendo-lhes no mesmo jaez.

E o comandante da coluna grita: - "vamos a eles filhos de puta cabrões !  O teu pai isto a tua mãe aquilo a tua mulher assim e assado ! Meu preto de merda ! " ... Enquanto os mortos exalam um cheiro nauseabundo que nos acobarda e os feridos largam a vida vagarosa e pegajosamente porque não há estradas que os salvem nem meios de transporte que os evacuem. Morre-se tão estupidamente na guerra. Felizmente uso penduradas do pescoço umas figas, num fio donde pende um crucifixo e tenho uma santinha na carteira. Pelo sim pelo não tatuei “amor de mãe” no braço esquerdo, o do lado do coração, não vou morrer pois não ?

No acampamento estou em segurança, os amuletos espetados nos postes da vedação já mirraram, lembram-me, nem eu sei por quê, a Capela dos Ossos, na igreja de S. Francisco. Servem de espantalho aos turras. Ao princípio custei a habituar-me a este espectáculo, agora se pudesse levava uma de recordação para a metrópole, talvez aquela maior pois eu mesmo a cortei. Às vezes jogávamos à bola com elas, ricos tempos ! Aquilo é que era camaradagem !

E de seis em seis meses, em Bissau, aquilo é que era festa ! Bebedeiras de caixão à cova ! Longe vá o agoiro ! A visita às sanzalas caída a noite, as pretas são mais quentes que as brancas.

Também jogávamos xadrez, não só damas.

Terei filhos ?

O civil dos passes na base aérea de Bissau colecciona armas e fez da sua casa um museu ainda que nunca tivesse sido tropa. O graduado do comando colecciona presépios, tem lógica não tem ? E a lógica é uma batata não é ? Estão todos malucos não estão ? Se me não vou embora depressa fico pior que eles, e é preciso cuidado não apanhe eu um cavalo.

Soldados ! No glorioso cumprimento dos deveres pátrios esperamos de vós todo o empenho e coragem para o desempenho da missão que vos foi confiada ! Que cada um tome consciência de que até a morte é honrosa quando estão em jogo os mais altos valores da nação e do império ! Boa sorte e desfaçam-nos !


Daqui fala o furriel miliciano 2831/73 Humberto Baião na mata de Contabani, para meus pais e irmãos um Feliz Natal e próspero Ano Novo.

* Este texto, à excepção do primeiro parágrafo, publicado em Janeiro de 1974 no jornal de parede da companhia em Bissau, valeu ao seu autor uma repreensão registada com destacamento pessoal para a metrópole afim de ser acusado de dissidência, castigo que o golpe de 25 de Abril deitaria por terra, este mesmo texto foi também já publicado, completo,  no Semanário Imenso Sul, Évora, em 11-02-2000 









quarta-feira, 19 de março de 2014

181 A IMPORTÂNCIA DE ME CHAMAR HUMBERT

                                 
Surpreendi-me a mim próprio porque naquela manhã luminosa os campos e as flores ficaram esperando o meu olhar para que, num repente abrissem, e foi quando abandonei de todo as conversas dos velhos e me concentrei nesse mister que os rebentos finalmente desabrocharam e sacudiram as amarras da vontade que neles oprimida estava. 

Olhei ao longe, até Elvas, e na esteira do meu olhar as giesteiras agitaram-se num tremor estrepitoso e abriram em uníssono, pelo que posso garantir-vos que de todas as flores campestres é a giesta aquela cuja melodia mais se destaca na manta de retalhos colorida dos campos que se estendem até Badajoz e de Monsaraz se avistam.

Temia a canícula das tardes quentes em que bastava o restolhar duma cobra nas ervas secas para me pôr os sentidos em alerta, por isso aproveitava as manhãs em que elas pasmadas se quedavam enroladas sob as fragas, aquecendo sangue que lhes desse alma para, como eu, cabriolarem, pois cavalgava os muretes da entrada da vila e entretinha-me ouvindo ociosos sem jorna, apostando os sentidos no Alquerque* que a todos arrebanhava em intermináveis gestas.

Espojado nas lajes frescas do murete manuseava as pedrinhas,* aliviava o elástico dos suspensórios, o ouvido pendendo-me para as histórias marteladas no canto onde os homens mijavam e de mão sobre o sobrolho punham a vista nos fumos que se soltavam dos fornos das olarias da Aldeia do Mato, numa tentativa vã de catalogarem pelas suas formas e cores a cerâmica que vomitavam, porque do “Santiago”, que só pratos cozia, jamais poderiam ser aqueles novelos em catadupa, quando muito do “Beijinho”, esse sim mestre dos melhores potes e louças dali à raia e até Espanha, era sabido de todos.

           Pasmava ouvi-los dissertando sobre o fumo branco e o fumo negro das cerâmicas e nem o seu cantado linguajar abafava o silêncio rumorejante das águas da ribeira que se avistavam daqui, faiscando, e cujo morse eu traduzia manipulando as pedrinhas* ao sabor desses segredos em código emanados das violetas bravas que lhe salpicavam as margens.

Foi somente quando o rosnar do motor da camioneta da tarde espumando na ladeira se fez ouvir que os homens se benzeram e largaram fugindo de chapéu na mão, trancando as portas de casa, porque um motor era um ser estranho e lembrava os idos de antanho, e certa manhã de cerrado nevoeiro em que um igual ruído, trazido por um biplano, alarmara todo o termo por tonitruante impacto e ígneo incêndio de cujos destroços, desabados junto à torre de menagem do castelo só um cadáver carbonizado restou, o do desditoso aviador, pela sina ludibriado, e que Humberto se chamara.

Tal como Humberto deram de nome ao meu padrinho e todos esperaram na família que cedo aprendesse a voar e lhe nascessem asas para que se sumisse daquele inferno para fora, como um pássaro, como o perfume duma giesta ou de uma violeta brava, ou como um rio, porque a uns a vila abafava os destinos num novelo e nem as mãos delicadas das mulheres lhes soltavam as pontas, e a outros os engalfinhava uma serpente camuflada nas esquinas do porvir e os esventrava para que jamais fossem além das muralhas da sua própria coragem ou das ameias do seu ímpeto, e no fosso, por trás de onde elas mais altas eram, podiam ver-se ainda por nem terem mais de cem anos, os esqueletos desossados dos últimos mártires cuja carne acicatara o apetite dos milhafres.

Por isso eu não vi, juro que não vi nunca vi, as mulheres à noite, escondendo nas trevas os seus trajes negros, ajoelhando num mar sobre as lajes frias do largo, orando compenetradas e erguendo as mãos a Nossa Senhora da Lagoa num painel de azulejos no frontão da igreja do mesmo nome, venerada há mais de quinhentos anos, pisando e repisando a víbora que se alimentava dos destinos das gentes e cujas gargalhadas se ouviam nas noites luciferinas de tempestade.

Mau grado o fadário da vila a minha vida decorria toda ela sob o signo da leveza e, uma vez, depois de ouvir a avó Inácia :

- Raio do gaiato que nem pára em casa, parece ter asas !

Pelo que nem será de admirar que tenha acautelado se seriam asas que me brotariam das costas, tal a coceira por vezes ali sentida, ou que já no liceu exultasse sempre que o professor de atletismo :

- Parece que tem asas nos pés o raio do miúdo !

Nem foi preciso mais para acentuar a minha queda pelos clássicos, pelos mitos de Hermes e Pégaso, tudo factos que, contudo, não saciaram a minha ânsia de realização pessoal, cousa que até hoje persigo.

Depois de cinco divórcios de sucesso ressoam todavia em minha mente os gritos de cinco esposas indolentes, que em sonhos inda hoje me convidam a assentar os pés na terra, pelo que me interrogo em introspecção pessoalíssima se não seria já tempo de se terem concretizado todas as esperanças depositadas neste nome que carrego.

Porque ou o milagre se dá ou o paizinho e muita namorada que servi tinham razão e de um tolo de cabeça no ar não passarei jamais …


* Alquerque – velho jogo árabe cuja origem ninguém na vila conhecia. Uma espécie de “jogo do galo” em que cada contendor ao invés de alinhar cruzes procura alinhar as suas pedras. 






quinta-feira, 13 de março de 2014

180 - OS DIAS POR CUMPRIR ..............



Por saber ficavam os maus caminhos a percorrer, como chegara ali sabia, ainda que lhe custasse acreditar que tivesse sido ela a dar os passos e a aceitar o ritmo dos dias passados.

Era verão, e decerto o verão e o mar se conjugavam numa sequência que os astros alinhavam em cada estio de modo a mudar-lhe o apogeu e o perigeu tornando-lhe hiperbólicos os momentos com sol e sumindo-lhe a órbita no turbilhão calmo dos dias á beira mar, livre dos rebentos e agora com tempo para si, para ela, tempo mas não paz, tempo para meditar no quê como e porquê acontecera com ela, a quem a sombra ameaçava a soturna luminosidade dos dias.

Com o vagar tornavam lembranças e desejos, sonhos e miragens, que em ondas continuas, tal como a rebentação que massacra a costa, lhe ciliciavam o espírito, que deixavam em carne viva e sangrando, ela assustada, debutante ofuscada pela menarca do ser a quem a vida reclamava existência.

E, mal se sentava, contrapunha á amarga rotina dos dias a visão mirífica de praias de sonho, areias doiradas e pajens imberbes abanando ramos de palma ou servindo melífluos e embriagantes refrescos, quando não rodeada de eunucos e esperando um banho de leite perfumado com pétalas de rosa e um príncipe perfeito que a levasse dali num tapete mágico ondulando no éter.

Tão embrenhada estava no seu cogito que de um salto conquistou a janela, que abriu de par em par, para não ver o realejo ouvido e cujas notas lhe acudiram à mente num momento de desejo e sonho cujo desvario a levara à esplanada mesma em que se sonhara e sonhava recorrentemente amarrada na espera de uma quimera que, com desvelo acarinhava e lhe martirizava o suplício e o dilema dos dias não vividos.

Por isso o acordar lhe exigia a vergasta do teclado e do telefone em que mergulhava, qual linimento aos pecaminosos caminhos que se oferecia a si mesma cambiar em troca da sombria solenidade e estabilidade das horas que a aborreciam.

Sonhando ou não, conseguia ouvi-lo marulhando a areia da praia e era quando acreditando nele os pés castigados descalçava p’ra sentir alivio, como se neles a brisa do mar e os salpicos das ondas, as mesmas ondas em que mergulhava o pensamento e pelas quais se deixava arrastar das nove às cinco numa penitência frívola cumprida mecanicamente e cada vez mais vivida numa vívida ausência de si, era quando acreditava que a fuga para a terra dos sonhos lhe surgia diante como forma única de suportar o castigo de Eva no subido atrevimento de ambicionar o paraíso que se entregava a Hypnos.

Cada dia o sol mais forte cutucava-lhe o desejo de libertação do presídio do tempo e do auto de fé que para si era cada dia passado sem as asas dos sonhos e a rebeldia infrene dos desejos soltos que se concedia.

               A esta ânsia respondeu Neptuno que emergindo das águas cristalinas da lagoa atlântica, retesou os músculos e sorriu caminhando para ela de braços abertos tomando-a para si num amplexo delicado em que a espuma das ondas rendas, e o grosso das vagas grinaldas, com que a embelezou e cobriu.

                  Segurando-a no regaço e mergulhando os dedos nos delicados cabelos dela lhe afagou a nuca e beijou-lhe a fronte as faces e a boca sequiosa de amor e carinho, boca que se abriu degustando-o, sôfrega, como quem se empanturra de frutos do mar e hidromel celestial.

                     E assim se cumpriam os dias cumpridos e a cumprir.

“ E, quando a nuvem se detinha sobre o tabernáculo muitos dias, os filhos cumpriam o mandado do Senhor, e não partiam. “  9:19

“ À ordem do Senhor se acampavam, e à ordem do Senhor partiam; cumpriam o mandado do Senhor, que ele lhes dera. “ 9:23


“ Ora, quando chegava a vez de cada donzela vir ao Rei Assuero, depois que fora feito a cada uma segundo prescrito para as mulheres, por doze meses (pois assim se cumpriam os dias de seus preparativos, a saber, seis meses com óleo de mirra, e seis meses com especiarias e ungüentos em uso entre as mulheres) .“ 2:12

terça-feira, 11 de março de 2014

Alentejo, antes e depois, sempre ele …


O Expresso do passado sábado 8 de Março trazia, nas páginas centrais do seu Caderno de Economia, mais concretamente nas páginas 14 e 15, acerca da nossa pauperização, herdada e programada, um artigo curioso e que estranhamente ninguém mais abordou, nem sequer nas suas outras publicações de charneira, Visão, Exame ou até na SIC.

Resumidamente o artigo, bem desenvolvido e melhor fundamentado, procurava explicar a razão pela qual em Portugal, inserido no espaço económico europeu, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres.

O Expresso juntou alguns dos seus sábios e economistas, pegou nos dados estatísticos do Eurosat, analisou cada região da Europa comunitária pelas suas classificações NUT1 NUT2 e NUT3, comparou-as entre elas e ao longo do tempo para concluir que de entre todas as mais pobres são Portugal e a Grécia, esta apesar de tudo melhor do que nós, sendo que entre todas as 31 regiões portuguesas o Alentejo está, por muito que nos custe aceitar, entre as que apresentam pior situação e desempenho.

Portugal aparece como a região mais pobre da EU, União Económica e monetária, a titulo de exemplo assinalo um concelho da serra da Estrela com um PIB de somente 8.300€ por habitante, 8% do rendimento per capita da região mais rica da EU, a de Wolfsburg, 108.000€ anuais por habitante e quatro vezes superior à média europeia, no fundo da tabela, o nosso país apresenta 7 das 10 regiões mais pobres, e é aqui que surge destacado no fim da tabela o Alentejo Central com somente 20% da média europeia, encabeçada pela Holanda, Luxemburgo e Alemanha…

Destaca o articulista, ou os articulistas, que a EU e o euro foi para nós um péssimo negócio, país cujas elites não se encontraram à altura do desafio que assumiram.

Foram usados pelo Expresso os dados insuspeitos do Eurostat para os anos de 2000 / 2011, que se baseou nas designações NUTs para o estudo apresentado.

       O semanário não apresentou soluções nem julgamentos, não apontou culpados nem fez comentários, deixou aos leitores e à intimidade de cada um essa tarefa, eu diria que como sempre uns dirão que os culpados são os outros, e os outros que os culpados são os uns, cá para mim a culpa de tudo é dos Kosovares…




quinta-feira, 6 de março de 2014

DREAMING OF DIAMOND IN BLACK HOLE UNDER THE STARRY SKY ........



DREAMING OF DIAMOND IN BLACK HOLE UNDER THE STARRY SKY

Oh ! Lá vens tu com as tuas ……
todos os dias lembras uma nova…
hoje é o arranhar suave…………......…
já não tenho 18 anos … mas levas-me lá …
quebras-me o tino
aguças-me o desejo
convulsionas-mi
provocas-mi

E todo eu um rotundo tumulto
atraído por esse sorriso deliquescente
orbitando os teus lábios
onde me sonho em volúpia
sugado por língua lânguida
abraçando-te tal qual Fauno, ou Dionísio
e, despindo o meu Eros
despimo-nos

Despojámo-nos,
entrega sublimada
eu bombeiro de mim mesmo
ardendo numa combustão maliciosa
e que, pura, despertas, desperta
pois sabes que sonhando me perco
no doce dos teus lábios, enquanto num amplexo
ardente, descomplexado, comprometido
te acolho sorrindo e minhas mãos te percorrem
derivando dos ombros para o delgado da cintura
agora devagar os altos e suaves montes das tuas ancas
devagar devagarinho nas tuas coxas duras
retesadas
sinto-o na ponta dos dedos ao tocar-te as virilhas suadas
e então,

Reflexo não do espelho mas da alma
bocas apressadas
a língua demorando o passeio nos teus lábios
os dedos encantando-se aveludados noutros lábios
e nós não já tremendo, mas gemendo
repentinamente as línguas num abraço
o dedo precipitadamente em ti, suavemente
titilando-te o amor profundo
sentindo-te
escorregando em ti até que
meigamente
rodas sobre ti neste amplexo louco em que sonhamos
percebo-te as costas tensas
as tuas curvas contra mim
e

Nas minhas mãos
duas maçãs hirtas
e eu às dentadinhas
mordo-te a nuca, o pescoço
inclinas-te, curvas-te
um sussurro
empinas
agora  tudo todo simmmmm
parem o tempo, pára o tempo, parou o tempoooo
um baloiço baloiçando
o baloiço num arco alto
cada vez mais alto
simmmmmmmmmmmm
maissssssssssssssss
mais altooooooooooooooooooo
até virar…………………………………
não pares
empurraaaaaa

E de pronto um flash
um clarão que cega
uma luz que acalma
que nos pára como se ……..
uma fotografia
deixa estar querida
não tires agora amor
agora não por favor, murmuras


Selfies agora não please

Deixa-te cair
quero dormir
sim
abraçadinhos
juntinhos
coladinhos
amo-te

J





quarta-feira, 5 de março de 2014

179 - NOSSA SENHORA DA LAGOA ......................


Sempre duvidara que aquela enorme igreja assentasse as fundações em cima de uma lagoa, não tanto por duvidar ter a física da leveza sucumbido às premonições populares e disso não ser capaz, afinal eu mesmo já vislumbrara várias vezes a vila inteira pairando acima das nuvens, vila, castelo, varandil, igreja, cisterna, escola, muralhas, tudo certamente muito mais pesado que uma igreja só, sobretudo uma de aparência tão leve como o azul claro que certa vez lhe rematava os baixinhos. 

                   Porém era para mim difícil aceitar que ali houvesse uma lagoa, as dúvidas assaltavam-me não obstante a certeza das águas na cisterna, e que bastas vezes sentira bem frias nas cálidas tardes de verão em que eu e o Julinho lá nos refugiáramos da canícula.

Nessa manhã aborrecera-me, já ia alta, e eu, sozinho, brincara de avião em torno do pelourinho quando senti roçagar na face as almas penadas dos expostos e a pele se me arrepiou num calafrio repentino, como quando acordava com uma osga passeando-se no meu pescoço. 

Afastei-me receoso e tão bruscamente que as grilhetas dos mortos se me enlearam nos pés e me travaram os passos e, temente, encostei-me ao gargalo do poço cuja água, tão profunda, jamais poderia ser a mesma que a do charco da igreja de Nossa Senhora da Lagoa, mas reflectia, refractada nos círculos concêntricos que se formavam na queda das pedrinhas que com desfastio provocado pelo ar pesado da manhã eu lhe atirava, reflectia a minha imagem, tremente e temente, e que por instantes ficava impressa nessa água assim agitada, em contraponto à quietude a que os sacrificados mártires no pelourinho se impunham.

Foi somente quando o fundo do poço me devolveu a imagem de um ungulado de olhos em chamas que o corpo se me inteiriçou numa paralisia asfixiante e intentei fugir dali, subtraindo-me ao hausto que o gargalo do poço exalava e espinhosamente me atraía para as águas profundas que o bolçavam.

Dei por mim fugido da razão e trémulo da emoção que me causou o tecto elevado da igreja, cosi-me melhor contra uma das altas colunas que sustentavam a nave quando me mirei e remirei nas lajes escuras do chão de xisto impregnadas de humidade, tentando não ser eu mas um outro que refugiado estaria numa palafita que séculos antes dos castros ocupavam o lugar que hoje a igreja de Nossa Senhora da Lagoa tanta protecção me oferecia.

Do alto da minha pequenez assustada encolhia-me ante a esplendorosa talha dourada do altar mor e atrevi-me, pé ante pé, a percorrer a nave deserta e fresca onde eu só não levitava por sentir sobre mim o pesado olhar de todos os santos, em todos os altares, em todas as capelas, focados em mim, intimidando-me, enquanto continuava ouvindo silvando lá fora as almas dos mortos rodopiando em volta do pelourinho e assomando ao gargalo do poço, arrastando as correntes e exibindo as chagas purulentas cujo cheiro, fétido, os círios ardendo nos altares cobriam e eu, de pernas tremendo como varas verdes, num salto fenomenal para não pisar as lajes sob as quais descansam em paz os ditosos, saí dali a fim de lhes não perturbar o eterno sossego que naquela paz sagrada buscavam.

Vergado à compunção ensurdecedora que o silêncio da igreja incutia, arrastei tenazmente os meus medos e alcancei a escada que me conduziu à varanda no alto do frontão entre as duas torres sineiras cujos sinos, melíflua e melodiosamente, me acordavam em cada manhã das férias passadas naquela vila que já era um navio, mas que não tinha então à vista o enorme mar em cuja bonança hoje navega.

Matei a curiosidade e toquei no bronze frio dos sinos com a ponta dos dedos, experimentando neles a duvidosa magia de comando das almas para que o Julinho me alertara, cujo penar se sumia dos nossos sentidos quando, admirados, recolhiámos a mão do verdete sujo do sino, para só tornar tocando-lhe de novo,  e então novamente as almas em seu diáfano horror em redor do pelourinho e na borda do poço, para se remeterem ao sepulcral  penar mal eu encolhia novamente o dedo.

E foi assim que senti, dominando os meus medos, esvaír-se-me a infância, estando eu nisto quando, nem precisava ter ouvido lá em baixo o senhor Teófilo, cujos gestos não davam lugar a dúvidas convidando-me a descer antes que subisse ele e me desse duas lambadas. Amuei mas desci.

Mau grado as ameaças tomei, contente, nesse pungente momento a firme decisão que naquele dia transmiti à avó Inácia :

- Avó, a partir d’hoje não quero voltar a usar calções nem suspensórios.

Ela sorriu para mim, estendeu-me os braços em que me acolheu e …

- Meu querido menino, és mais parvinho que o teu avô.

Puxou-me para o seu colo enquanto me lambuzava com beijos sabendo quanto eu detestava isso, e só escoando-me me libertei daquele abraço e sorriso mágicos com que sempre me cingia.

De fugida da avó avistara o Julinho perscrutando a praça da sacada da janela. Gritei-lhe e fiz-lhe sinal. Descemos ao largo lajeado da igreja e sentámo-nos na escadaria. Esculpidos nas lajes a canivete os sulcos dos jogos do Alquerque* convidavam-nos a um despique, ele alinhou, eu fiquei com as pedrinhas brancas ele com as pretas. Ganhou o melhor de nós.

  
* Alquerque – Velho jogo árabe cuja origem ninguém na vila conhecia. Espécie de “jogo do galo” Cada contendor ao invés de alinhar cruzes procura alinhar as suas pedras.